quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Democracia
"Em 13 de dezembro o Ato Institucional n. 5 faz 30 anos.
Buscando uma “autêntica ordem democrática”, um militar, que não fora
eleito pelo povo, revogou o que quis da Constituição vigente. Dizia ter o propósito de assegurar
a liberdade, o respeito à dignidade da pessoa, o combate à corrupção, à subversão e às
ideologias contrárias às tradições do povo… Entretanto, permitiu a suspensão de direitos políticos,
autorizou o confisco, limitou o habeas-corpus, negou garantias constitucionais e impediu
que o Judiciário apreciasse a matéria.
Anos de chumbo vieram: a corrupção não foi vencida, as liberdades
públicas foram cerceadas, o País mergulhou em ditadura da qual só saiu em 1984, quando o
regime militar caiu pelo desgaste e não pelas armas.
Hoje, a liberdade é ampla e o País cresceu sim, mas tanto na riqueza
quanto na miséria. E continua subdesenvolvido, ou, mais adocicadamente, país em desenvolvimento
ou país emergente. Mas seu maior subdesenvolvimento é o cultural, pois ainda o
autoritarismo continua e ainda não se aprendeu a respeitar a ordem constitucional. O presidente
da República legisla hoje por medidas provisórias com a mesma desenvoltura com que então
se expediam decretos-leis.
Hoje não temos mais um militar que rasga a Lei Maior, mas um civil
que trata como privilégios o que uma Constituição democrática garante como direitos, e edita
medidas provisórias para revogar direitos adquiridos.
Sem dúvida, o direito não é imutável. Nem o direito constitucional.
Contudo, a ordem constitucional exige respeito ao direito adquirido. E defender a democracia
não é justificativa para violar a Constituição. Aliás, esse foi o mote do AI 5…
Questionemos até que ponto nossa democracia é legítima.
Democracia é governo da maioria do povo e não a vontade do governante.
O poder político e econômico está concentrado em minoria que freqüentemente defende
seus próprios privilégios. Alguns parlamentares são sempre governistas, seja lá quem for o
governo; outros votam de acordo com seus interesses, não raro em contrariedade com compromissos
partidários e promessas eleitorais. Os interesses de grupos e corporações não raro
1. Artigo publicado em Síntese Jornal, Porto Alegre, dezembro de 1998, pág. 3
prevalecem, e muitas vezes é hipocrisia supor que a lei corresponda ao interesse geral (Judiciário,
Polícia, militares, pecuaristas, empresários, banqueiros, e até mesmo interesses estritamente
individuais têm levado à criação de leis). Além disso, o efetivo acesso à Justiça não é
igual para todos, especialmente para os pobres.
Ainda há outros riscos que viciam uma democracia representativa:
a) as fraudes na escolha dos representantes (a demagogia; o controle do tempo da propaganda
e dos meios de acesso a ela; a dificuldade de conhecer os candidatos; o processo eletivo facilmente
manipulável pelos governantes e pela mídia; a influência das pesquisas de opinião
pública; as reações emocionais da população); b) a deformação do equilíbrio da separação de
poderes (a supremacia do Executivo, ou a invasão de atribuições de um poder pelo outro, como
o Executivo a legislar por medidas provisórias, ou o Judiciário a legislar por meio de súmulas
vinculantes, ou o Legislativo, no exercício do poder constituinte derivado, a suprimir
garantias constitucionais dos outros poderes); c) a ruptura dos princípios de igualdade e liberdade
individual, principalmente em razão da pobreza e da miséria, que viciam as bases de um
Estado democrático.
Uma democracia legítima supõe longo caminho de seu efetivo exercício,
com um sistema que assegure: a) a efetiva divisão do poder; b) mecanismos de freios e
contrapesos na divisão do poder, que funcionem efetivamente e que não possam ser suprimidos;
c) o respeito ao direito das minorias e o reconhecimento e a aceitação de que estas se
podem tornar maiorias; d) o reconhecimento de garantias e direitos individuais e coletivos;
e) o respeito à liberdade, igualdade e dignidade das pessoas; f) a existência de decisões tomadas
direta ou indiretamente pela maioria, respeitados os direitos da minoria; g) a total liberdade
na tomada de decisões fundamentais pelo povo, não conduzidas pelos governantes nem
forjadas pela mídia; h) um sistema eleitoral livre e apto para recolher a vontade dos cidadãos;
i) o efetivo acesso a alimentação, saúde, educação, trabalho, Justiça e demais condições básicas
de vida por parte de todos.
A democracia representativa só funciona adequadamente se houver um
sistema efetivo de partidos, com prévios programas de governo, para que a vontade dos eleitores
não seja burlada. Deveriam ser mais usados o referendo e o plebiscito, sem prejuízo da
possibilidade efetiva de revogação dos mandatos (recall).
Precisamos, enfim, repensar o sistema que permite que um presidente
da República possa ser eleito em primeiro turno, quando, nesse embate, tenha perdido da soma
dos votos em branco, nulos e dos seus adversários."
_____________
• Hugo Nigro Mazzilli é professor de Direito e autor do livro O Ministério Público e o acesso
à Justiça (Saraiva).
Buscando uma “autêntica ordem democrática”, um militar, que não fora
eleito pelo povo, revogou o que quis da Constituição vigente. Dizia ter o propósito de assegurar
a liberdade, o respeito à dignidade da pessoa, o combate à corrupção, à subversão e às
ideologias contrárias às tradições do povo… Entretanto, permitiu a suspensão de direitos políticos,
autorizou o confisco, limitou o habeas-corpus, negou garantias constitucionais e impediu
que o Judiciário apreciasse a matéria.
Anos de chumbo vieram: a corrupção não foi vencida, as liberdades
públicas foram cerceadas, o País mergulhou em ditadura da qual só saiu em 1984, quando o
regime militar caiu pelo desgaste e não pelas armas.
Hoje, a liberdade é ampla e o País cresceu sim, mas tanto na riqueza
quanto na miséria. E continua subdesenvolvido, ou, mais adocicadamente, país em desenvolvimento
ou país emergente. Mas seu maior subdesenvolvimento é o cultural, pois ainda o
autoritarismo continua e ainda não se aprendeu a respeitar a ordem constitucional. O presidente
da República legisla hoje por medidas provisórias com a mesma desenvoltura com que então
se expediam decretos-leis.
Hoje não temos mais um militar que rasga a Lei Maior, mas um civil
que trata como privilégios o que uma Constituição democrática garante como direitos, e edita
medidas provisórias para revogar direitos adquiridos.
Sem dúvida, o direito não é imutável. Nem o direito constitucional.
Contudo, a ordem constitucional exige respeito ao direito adquirido. E defender a democracia
não é justificativa para violar a Constituição. Aliás, esse foi o mote do AI 5…
Questionemos até que ponto nossa democracia é legítima.
Democracia é governo da maioria do povo e não a vontade do governante.
O poder político e econômico está concentrado em minoria que freqüentemente defende
seus próprios privilégios. Alguns parlamentares são sempre governistas, seja lá quem for o
governo; outros votam de acordo com seus interesses, não raro em contrariedade com compromissos
partidários e promessas eleitorais. Os interesses de grupos e corporações não raro
1. Artigo publicado em Síntese Jornal, Porto Alegre, dezembro de 1998, pág. 3
prevalecem, e muitas vezes é hipocrisia supor que a lei corresponda ao interesse geral (Judiciário,
Polícia, militares, pecuaristas, empresários, banqueiros, e até mesmo interesses estritamente
individuais têm levado à criação de leis). Além disso, o efetivo acesso à Justiça não é
igual para todos, especialmente para os pobres.
Ainda há outros riscos que viciam uma democracia representativa:
a) as fraudes na escolha dos representantes (a demagogia; o controle do tempo da propaganda
e dos meios de acesso a ela; a dificuldade de conhecer os candidatos; o processo eletivo facilmente
manipulável pelos governantes e pela mídia; a influência das pesquisas de opinião
pública; as reações emocionais da população); b) a deformação do equilíbrio da separação de
poderes (a supremacia do Executivo, ou a invasão de atribuições de um poder pelo outro, como
o Executivo a legislar por medidas provisórias, ou o Judiciário a legislar por meio de súmulas
vinculantes, ou o Legislativo, no exercício do poder constituinte derivado, a suprimir
garantias constitucionais dos outros poderes); c) a ruptura dos princípios de igualdade e liberdade
individual, principalmente em razão da pobreza e da miséria, que viciam as bases de um
Estado democrático.
Uma democracia legítima supõe longo caminho de seu efetivo exercício,
com um sistema que assegure: a) a efetiva divisão do poder; b) mecanismos de freios e
contrapesos na divisão do poder, que funcionem efetivamente e que não possam ser suprimidos;
c) o respeito ao direito das minorias e o reconhecimento e a aceitação de que estas se
podem tornar maiorias; d) o reconhecimento de garantias e direitos individuais e coletivos;
e) o respeito à liberdade, igualdade e dignidade das pessoas; f) a existência de decisões tomadas
direta ou indiretamente pela maioria, respeitados os direitos da minoria; g) a total liberdade
na tomada de decisões fundamentais pelo povo, não conduzidas pelos governantes nem
forjadas pela mídia; h) um sistema eleitoral livre e apto para recolher a vontade dos cidadãos;
i) o efetivo acesso a alimentação, saúde, educação, trabalho, Justiça e demais condições básicas
de vida por parte de todos.
A democracia representativa só funciona adequadamente se houver um
sistema efetivo de partidos, com prévios programas de governo, para que a vontade dos eleitores
não seja burlada. Deveriam ser mais usados o referendo e o plebiscito, sem prejuízo da
possibilidade efetiva de revogação dos mandatos (recall).
Precisamos, enfim, repensar o sistema que permite que um presidente
da República possa ser eleito em primeiro turno, quando, nesse embate, tenha perdido da soma
dos votos em branco, nulos e dos seus adversários."
_____________
• Hugo Nigro Mazzilli é professor de Direito e autor do livro O Ministério Público e o acesso
à Justiça (Saraiva).
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
As qualidades dos outros
"Devido ao homem ter tendência para ser parcial para com aqueles a quem ama, injusto para com aqueles a quem odeia, servil para com os seus superiores, arrogante para com os seus inferiores, cruel ou indulgente para com os que estão na miséria ou na desgraça, é que se torna tão difícil encontrar alguém capaz de exercer um julgamento perfeito sobre as qualidades dos outros."
Confúcio, in 'A Sabedoria de Confúcio'
Confúcio, in 'A Sabedoria de Confúcio'
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Os medos
"É a medo que escrevo. A medo penso,
A medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo.
A medo me renego, me convenço.
A medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo.
A medo me renego, me convenço.
A medo amo. A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
De outros medos. A medo é que resvalo
O corpo escrutador, inquieto, tenso.
A medo repouso no intervalo
De outros medos. A medo é que resvalo
O corpo escrutador, inquieto, tenso.
A medo durmo. A medo acordo. A medo
Invento. A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.
Invento. A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.
A medo guardo confissão, segredo,
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo e mudo."
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo e mudo."
José Cutileiro, “Os medos” in Versos da mão esquerda, 1961.
Versos ditados no período de ditadura em Portugal que durou até 1974.
África - Artigo fantástico
O ano que passou certamente não foi dos melhores para o continente africano. Al Qaeda tomando conta de mais da metade do Mali, travando confrontos com tropas francesas no norte do país. Volta da ditadura militar no Egito e prisão das principais lideranças dos protestos que marcaram a derrocada de Hosni Mubarak, em 2011. Massacre étnico no Sudão do Sul, com mais de 200 mil refugiados apenas nas últimas três semanas. Guerra civil entre milícias cristãs e muçulmanas na República Centro-Africana, com quase 1 milhão de deslocados. Líbia pós-Muammar Kadafi virando uma anarquia nas mãos de incontáveis tribos. Guiné-Bissau imersa numa ditadura militar desde o golpe de 2012, com mais de dois terços da população abaixo da linha de pobreza. E isso sem falar, próximo ao continente, na guerra civil com armas químicas na Síria, no Oriente Médio, que já conta com mais de 130 mil mortos – dentre os quais 11.709 mulheres e crianças – segundo o último relatório da Syrian Observatory for Human Rights (que confirmou que o número total de mortos pode estar subestimado em pelo menos 50 mil pessoas).
Além disso, há ainda os velhos problemas. Robert Mugabe tomando posse de seu sétimo mandato no Zimbabwe, 33 anos à frente de um dos países mais pobres do continente. Congo, onde um general brasileiro comanda tropas da ONU com mais de 20 mil homens, há duas décadas imerso no mais sangrento conflito no mundo desde o fim da 2ª Guerra Mundial, que já matou mais de 6 milhões de pessoas e viu num mísero ano mais de 400 mil estupros de mulheres entre 15 e 49 anos (segundo a Associação Americana de Saúde Pública são 1.095 mulheres estupradas por dia no país; 45 a cada hora). E a Somália, que vive uma guerra civil desde a queda do presidente Siad Barre em 1991, e viu a organização internacional Médicos Sem Fronteira encerrar seu programa de ajuda humanitária após 22 anos de atuação no país, resultado da profunda violência contra as equipes médicas, responsável pelo tratamento de mais de 30 mil crianças desnutridas apenas em 2012 (mais de 258 mil somalis morreram de fome entre outubro de 2010 e abril de 2012, segundo o último relatório divulgado pela ONU, dentre os quais 133 mil crianças com menos de cinco anos).Apesar de todos esses fatos e dados alarmantes, ainda há esperança no continente africano. E ela inevitavelmente passa por países que respeitam instituições como a propriedade privada e o livre comércio.
Botswana é um desses casos. Em 1966, quando se tornou independente sobre a liderança de Seretse Khama, era um dos países mais pobres do mundo. Com uma renda per capita inferior a US$70/ano, o país contava com míseros 12 quilômetros de estradas pavimentadas, 22 cidadãos com diploma universitário e outros 100 com formação na escola secundária. Adotando instituições econômicas e políticas inclusivas, Botswana experimentou um dos mais acelerados crescimentos econômicos das últimas cinco décadas e encontra-se atualmente no mesmo patamar de países bem-sucedidos do Leste Europeu, como Estônia e Hungria. Num continente onde todos os caminhos levam para a tirania – seja perpetuada por ditadores ou por tribos e milícias – Seretse Khama e Quett Masire souberam direcionar os rumos do país para a prosperidade, realizando reformas econômicas em defesa do livre mercado e propagando estabilidade política.
Atualmente, segundo o ranking da Heritage, Botswana é a trigésima economia mais livre do mundo – à frente de países como Coreia do Sul, Noruega, Bélgica, Espanha; e bem à frente de Brasil e África do Sul. No Ease of Doing Business Rank, do Banco Mundial, enquanto o nosso país ocupa o pífio 116º lugar, eles já são o 56º. E a abertura econômica trouxe um significativo aumento de renda ao país, além de diminuir a latente desigualdade social. Até meados dos anos 90, Botswana possuia metade da nossa renda per capita. Desde então, com a renda per capita crescendo a uma taxa média de 4,6% ao ano, acabamos ultrapassados (atuais $16,105/ano; o Brasil tem um PIB per capita de $11,716, em PPP). A pobreza, seguindo a abertura econômica, declinou de mais de 50% para menos de 20%.
Mas nem tudo são rosas. Evidentemente ainda há graves problemas num país historicamente abraçado com o extrativismo. Botswana é o segundo país com a maior incidência do vírus HIV em todo mundo, perdendo apenas para a vizinha Suazilândia – quase 25% da população é aidética. Muito por conta disso, a expectativa de vida da população é baixa e a mortalidade infantil é alta – embora esses números estejam melhorando drasticamente nos últimos anos graças ao aumento de renda da população e do consequente gasto per capita em saúde. Ainda assim, acompanhando o milagre econômico, 83% da população já é alfabetizada (esse número é de 71,4% no Egito, por exemplo), o país tem um dos maiores Índices de Desenvolvimento Humano da África Subsaariana, no “Corruption Perceptions Index” é o menos corrupto de todo continente (menos corrupto que países como Portugal, Espanha, Coreia do Sul, Itália e Brasil) e detém bons índices no ranking de liberdade de imprensa da organização Reporters Without Borders (à frente de países como Japão, Argentina, Chile, Itália, Coreia do Sul e Brasil). Além disso, nos últimos anos o país deixou de ser tão dependente de diamante, ouro, cobre, níquel e carvão, e viu um crescimento exponencial do setor industrial e de serviços.
Não bastasse, Ian Khama – filho de Seretse Khama e atual presidente do país – é uma das poucas autoridades no continente com coragem para enfrentar Muhammar Kaddafi, Robert Mugabe e outros tiranos africanos. Recentemente, exigindo a construção de uma estabilidade política, num discurso pouco usual no continente, disse que a comunidade internacional têm a responsabilidade de “desencorajar aqueles que teimam em se manter no poder durante várias décadas, quer seja através de processos eleitorais corruptos para favorecer o incumbente, quer de outros casos em que não existe nenhuma tentativa de se formar um processo eleitoral”.
O continente africano detém os mais baixos índices de desenvolvimento humano do mundo. E isso se dá fundamentalmente graças à falta de estabilidade política e de instituições que sustentem o progresso na região. Países como Maurício e Botswana são a prova de que é possível derrubar esses muros. O livre mercado pode salvar a África.
Fonte: Rodrigo da Silva em Libertroll
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
"Aquele que se tenha erguido acima do cesto das esmolas e não se tenha contentado em viver ociosamente das sobras de opiniões suplicadas, que pôs a funcionar os seus próprios pensamentos para encontrar e seguir a verdade, não deixará de sentir a satisfação do caçador; cada momento da sua busca recompensará os seus dissabores com algum prazer; e terá razões para pensar que o seu tempo não foi mal gasto, mesmo quando não se puder gabar de nenhuma aquisição especial."
John Locke, in 'Ensaio Sobre o Entendimento Humano'
John Locke, in 'Ensaio Sobre o Entendimento Humano'
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Para ler
Mao Tse-Tung liderou a Revolução Cultural (1966-1976), que fez a China se tornar um país comunista. A execução sistemática de inimigos foi uma das consequências da "limpeza" pela qual a China passou naquele período.
| Andrew Wong/Reuters |
| Mao Tsé-tung liderou o exército vermelho que expulsou Chiang Kai-shek da China |
"Mao Tse-tung, que durante décadas deteve poder absoluto sobre a vida de um quarto da população mundial, foi responsável por bem mais de 70 milhões de mortes em tempos de paz, mais do que qualquer outro líder do século 20", escrevem Jung Chang e Jon Halliday em "Mao: A História Desconhecida".
Mao –que assumiu o governo em 1949– se apoiou em estudantes, um dos objetivos principais era garantir a participação da juventude nas mudanças. Antes, o país vivia uma crise política e econômica.
A Revolução se fez a partir do campo, pelos camponeses, e não das cidades, pelos operários. Uma receita que contrariava a ortodoxia marxista.
A biografia "Mao: A História Desconhecida" é o resultado de uma década de pesquisa em arquivos do mundo todo e centenas de entrevistas com amigos, colaboradores e conhecidos do líder chinês.
Os autores procuram demolir diversos episódios da revolução chinesa. Eles contrariam o professado heroísmo da Longa Marcha, relatam ajuda financeira e militar da União Soviética de Stálin e desqualificam os relatos de rebeldes comunistas que teriam enfrentado o Japão na Segunda Guerra Mundial.
O livro causou grande impacto quando foi publicado, no Reino Unido, em 2005. No Brasil, a Companhia das Letras lançou o título em duas edições, a última delas, em versão econômica, em 2012. Abaixo, leia um trecho de "Mao: A História Desconhecida".
*
PARTE 1
Um crente sem entusiasmo
Um crente sem entusiasmo
1. Entre o antigo e o moderno
(1893-1911; 1-17 anos)
(1893-1911; 1-17 anos)
Mao Tse-tung, que durante décadas deteve poder absoluto sobre a vida de um quarto da população mundial, foi responsável por bem mais de 70 milhões de mortes em tempos de paz, mais do que qualquer outro líder do século XX. Ele nasceu numa família de camponeses, em um vale chamado Shaoshan, na província de Hunan, no coração da China, em 26 de dezembro de 1893. Seus ancestrais haviam vivido no vale por quinhentos anos.
Era um mundo de beleza antiga, uma região temperada, úmida, cujas colinas ondulantes e enevoadas eram habitadas desde o Neolítico. Templos budistas que datavam da dinastia Tang (618-906), quando o budismo ali chegou, ainda estavam em uso. Florestas onde quase trezentas espécies de árvores cresciam, entre elas bordo, cânfora, metassequóia e o raro ginkgo, cobriam a área e abrigavam tigres, leopardos e javalis, que ainda vagavam pelas montanhas (o último tigre foi morto em 1957). Esses morros, sem estradas nem rios navegáveis, separavam a aldeia do resto do mundo. Ainda no começo do século XX, a notícia de um acontecimento tão momentoso como a morte do imperador, em 1908, não chegou lá e Mao só ficou sabendo disso dois anos depois, quando deixou Shaoshan.
O vale de Shaoshan mede em torno de cinco por três quilômetros e meio. As cerca de seiscentas famílias que viviam ali plantavam arroz, chá e bambu e usavam búfalos para lavrar os arrozais. A vida cotidiana girava em torno dessas atividades antiqüíssimas. Yi-chang, o pai de Mao, nasceu em 1870. Aos dez anos de idade, ficou noivo de uma menina de treze, de uma aldeia distante cerca de dez quilômetros, do outro lado de uma passagem chamada Passo do Tigre em Repouso, onde os tigres costumavam tomar banho de sol. Naquele tempo, essa curta distância era o suficiente para que as duas aldeias falassem dialetos quase ininteligíveis mutuamente. Sendo uma mera menina, a mãe de Mao não recebeu um nome; e, como era a sétima filha do clã Wen, era conhecida apenas como a Sétima Irmã Wen. De acordo com séculos de costume, seus pés haviam sido comprimidos e amarrados para produzir os assim chamados "lírios dourados de três polegadas", que eram o modelo de beleza da época.
| Divulgação |
| Livro mostra como Mao concentrou-se em expandir seu domínio |
O noivado com o pai de Mao seguiu costumes ancestrais. Foi arranjado pelos pais e se baseava numa consideração prática: o túmulo de um dos avôs dela estava em Shaoshan e precisava ser cuidado periodicamente com rituais elaborados; assim, ter um parente lá seria útil. A Sétima Irmã Wen mudou-se para a casa da família de Mao depois do noivado e casou-se aos dezoito anos, em 1885, quando Yi-chang estava com quinze.
Pouco depois do casamento, Yi-chang partiu para se tornar soldado, a fim de ganhar dinheiro para pagar as dívidas da família, o que conseguiu depois de vários anos. Os camponeses chineses não eram servos, mas agricultores livres, e entrar para o Exército por razões puramente financeiras era uma prática estabelecida. Felizmente, não se envolveu em nenhuma guerra; em vez disso, conheceu um pouco do mundo e captou algumas ideias para negócios. Ao contrário da maioria dos aldeões, Yi-chang sabia ler e escrever, o suficiente para lidar com contabilidade. Ao retornar, criou porcos e processou grãos para obter um arroz de alta qualidade, a fim de vender no mercado de uma cidade próxima. Comprou de volta as terras que o pai havia penhorado, depois comprou mais terras e se tornou um dos homens mais ricos da aldeia.
Embora relativamente próspero, Yi-chang continuou a ser um homem extremamente trabalhador e econômico por toda a vida. A casa da família consistia em meia dúzia de dependências que ocupavam uma ala de uma grande propriedade coberta de sapê. Mais tarde, Yi-chang substituiu o sapê por telhas, uma grande melhoria, mas conservou o chão batido e as paredes de barro. As janelas não tinham vidros - um luxo ainda raro - e eram apenas aberturas quadradas com barras de madeira, fechadas à noite com pranchas de madeira (a temperatura dificilmente caía abaixo de zero). A mobília era simples: camas de madeira, mesas e bancos de madeira nua. Foi num desses quartos espartanos, sob uma colcha de algodão azul tecida em casa, dentro de um mosquiteiro azul, que Mao nasceu.
Mao foi o terceiro filho, mas o primeiro a sobreviver à infância. Sua mãe, budista, tornou-se ainda mais devota para que Buda o protegesse. Mao ganhou o nome duplo Tse-tung.Tse, que significa "brilhar sobre", foi o nome dado a toda a sua geração, tal como predeterminado quando a crônica do clã foi escrita pela primeira vez, no século XVIII; tung significa "o Leste". Assim, seu nome completo significava "brilhar sobre o Leste". Quando dois outros meninos nasceram, em 1896 e 1905, ganharam os nomes de Tse-min (min significa "o povo") e Tse-tan (tan se referia possivelmente à região local, Xiangtan).
Esses nomes refletiam a inveterada aspiração dos camponeses chineses de que seus filhos fossem bem-sucedidos - e a expectativa de que poderiam ser. Altos cargos estavam abertos a todos por meio da educação, que durante séculos significou estudar os clássicos confucianos. A excelência possibilitaria que homens jovens de qualquer extração passassem nos exames imperiais e se tornassem mandarins - a caminho de se tornarem primeiros-ministros. Um cargo na burocracia era sinônimo de sucesso e os nomes dados a Mao e seus irmãos expressavam as esperanças neles depositadas.
Mas um grande nome também tinha um peso e desafiava potencialmente o destino; então, a maioria dos filhos ganhava um nome de estimação que era mais despretensioso ou forte, ou ambos. O de Mao era "Menino de Pedra" - Shi san ya-zi. Para esse segundo "batismo", sua mãe o levou até uma rocha de cerca de dois metros e meio de altura, que tinha fama de ser encantada, pois havia uma fonte sob ela. Depois que Mao fez mesuras e reverências, foi considerado adotado pela pedra. Ele gostava muito desse nome e continuou a usá-lo na idade adulta. Em 1959, quando voltou a Shaoshan e se encontrou com os aldeões pela primeira - e única - vez na qualidade de líder supremo da China, começou o jantar para eles com um gracejo: "Então, estão todos aqui, exceto minha Mãe Pedra. Devemos esperar por ela?".
Mao adorava sua mãe real, com uma intensidade que não demonstrava com mais ninguém. Ela era uma pessoa gentil e tolerante, que, como ele lembrava, jamais ergueu a voz para o filho. Dela herdou o rosto redondo, os lábios sensuais e um autocontrole calmo nos olhos. Mao falaria com emoção sobre a mãe pelo resto da vida. Foi seguindo seu exemplo que se tornou budista quando criança. Anos mais tarde, disse ao seu staff: "Eu idolatrava minha mãe [...] Onde quer que ela fosse, eu a seguia [...] indo a feiras de templos, queimando incenso e dinheiro de papel, fazendo reverências a Buda [...] Porque minha mãe acreditava em Buda, eu também acreditava". Mas ele abandonou o budismo na adolescência.
Mao teve uma infância despreocupada. Até os oito anos, morou com a família da mãe, os Wen, na aldeia deles, pois ela preferia morar com sua própria família. Lá, sua avó materna o adorava. Os dois tios e esposas o tratavam como filho e um deles se tornou seu pai adotivo, o equivalente chinês de padrinho. Mao fazia um pouco de trabalho agrícola leve, juntando forragem para os porcos e levando os búfalos para passear nos bosques de camélias, junto a um lago sombreado por folhas de bananeiras. Na velhice, ele lembraria com ternura dessa época idílica. Começou a aprender a ler, enquanto as tias teciam e costuravam à luz de uma lamparina a óleo.
Mao só voltou a morar em Shaoshan na primavera de 1902, aos oito anos de idade, para receber instrução, que assumiu a forma de estudo na casa de um tutor. Os clássicos confucianos, que compunham a maior parte do currículo, estavam acima da compreensão das crianças e tinham de ser aprendidos de cor. Mao foi abençoado com uma memória excepcional e se saiu bem. Seus companheiros de estudo lembravam de um menino diligente que conseguia não somente recitar mas também escrever mecanicamente aqueles textos difíceis. Ele também adquiriu conhecimentos básicos de língua e história chinesas e começou a aprender a escrever boa prosa, caligrafia e poesia - escrever poemas era uma parte essencial da educação confuciana. A leitura tornou-se uma paixão. Em geral, os camponeses se deitavam ao pôr do sol, para economizar óleo, mas Mao ficava lendo noite adentro, com uma lamparina acesa sobre um banco, ao lado de seu mosquiteiro. Anos depois, quando era governante supremo da China, metade de sua enorme cama vivia empilhada de clássicos chineses e ele enchia seus discursos e escritos com referências históricas. Mas seus poemas perderam qualidade.
Mao entrava frequentemente em choque com seus tutores. Fugiu de sua primeira escola aos dez anos, dizendo que o professor era um tirano. Foi expulso de pelo menos três escolas - ou "pediram que as deixasse" - por ser teimoso e desobediente. A mãe o protegia, mas o pai não estava contente e o salto de Mao de tutor em tutor era apenas uma das fontes de tensão entre eles. Yi-chang pagava pela educação do filho e esperava que ele pudesse ao menos ajudar nas contas da família, mas Mao não gostava da tarefa. Durante toda a vida, foi confuso com números e uma nulidade em economia. Nem gostava muito do trabalho braçal pesado. Passou a evitá-lo assim que acabaram seus dias de camponês.
Yi-chang não suportava ver Mao ocioso. Tendo gasto cada minuto de seus dias trabalhando, esperava que o filho fizesse a mesma coisa e batia nele quando não obedecia. Mao odiava o pai. Em 1968, quando estava se vingando dos adversários políticos em vasta escala, disse aos torturadores deles que gostaria que seu pai tivesse sido tratado com a mesma brutalidade: "Meu pai era mau. Se estivesse vivo hoje, deveriam 'pô-lo no jato'". Tratava-se de uma posição de tortura em que os braços da pessoa eram presos às costas e a cabeça forçada para baixo.
Mao não era uma mera vítima do pai. Ele reagia e muitas vezes saía vitorioso. Dizia-lhe que, por ser mais velho, deveria fazer mais trabalho manual do que ele, o mais jovem - o que era um argumento incrivelmente insolente pelos padrões chineses. Um dia, de acordo com Mao, pai e filho tiveram uma briga diante de convidados. "Meu pai me repreendeu diante deles. Isso me enfureceu. Disse-lhe uns palavrões e saí da casa [...] Meu pai [...] me perseguiu, me maldizendo e ordenando que eu voltasse. Cheguei na beira de um lago e ameacei saltar se ele se aproximasse mais [...] Meu pai recuou." Certa vez, ao recontar essa história, Mao riu e acrescentou uma observação: "Velhos como ele não queriam perder os filhos. Era essa a fraqueza deles. Eu ataquei o ponto fraco deles, e venci!".
Dinheiro era a única arma que o pai de Mao possuía. Depois que o filho foi expulso pelo quarto tutor, em 1907, ele deixou de pagar os estudos e o menino de treze anos teve de se tornar camponês em tempo integral. Mas logo encontrou uma maneira de evitar o trabalho na lavoura e voltar ao mundo dos livros. Yi-chang estava ansioso para que o filho se casasse e assim, amarrado, passasse a se comportar com responsabilidade. Sua sobrinha estava com a idade certa para se tornar esposa, sendo quatro anos mais velha do que Mao, o qual concordou com o plano do pai e retornou à escola depois do casamento.
O matrimônio realizou-se em 1908, quando Mao tinha catorze anos, e a noiva, dezoito. O nome da família da garota era Luo, mas ela mesma não tinha nome próprio e era chamada apenas de Mulher Luo. A única vez que Mao a mencionou foi numa conversa com o jornalista americano Edgar Snow, em 1936, quando manifestou um notável desprezo e exagerou a diferença de idade entre eles: "Quando eu tinha catorze anos, meus pais me casaram com uma garota de vinte. Mas eu nunca vivi com ela [...] Não a considero minha esposa [...] e pensei muito pouco nela". Não deu nenhuma pista de que não estava mais viva; na verdade, Mulher Luo morreu em 1910, pouco mais de um ano após o casamento.
O casamento precoce de Mao fez dele um feroz oponente dos casamentos arranjados. Nove anos depois, escreveu um artigo violento contra a prática: "Nas famílias ocidentais, os pais reconhecem a livre vontade dos filhos. Mas, na China, as ordens dos pais não são de modo algum compatíveis com a vontade dos filhos [...] Trata-se de um tipo de 'estupro indireto'. Os pais chineses estão todo o tempo estuprando indiretamente seus filhos".
Assim que sua mulher morreu, o viúvo de dezesseis anos exigiu partir de Shaoshan. O pai queria que ele fosse aprendiz num armazém de arroz na cidade próxima, mas Mao estava de olho numa escola moderna, distante cerca de 25 quilômetros. Ele soubera que o exame imperial fora abolido. Agora havia escolas modernas que ensinavam matérias como ciência, história e geografia mundiais e línguas estrangeiras. Foram essas escolas que abriram as portas de saída da vida camponesa para muitos chineses como ele.
No final do século XIX, a China havia embarcado numa transformação social dramática. A dinastia manchu, no poder desde 1644, vivia uma transição do antigo para o moderno. A mudança foi precipitada por uma série de derrotas acachapantes nas mãos das potências europeias e do Japão, a começar pela Guerra do Ópio, de 1839-42, quando as potências ocidentais vieram bater nas portas fechadas da China. Da corte manchu aos intelectuais, quase todos concordavam que o país precisava mudar se quisesse sobreviver. Fizeram-se muitas reformas fundamentais, entre as quais a instalação de um sistema educacional completamente novo. Iniciou-se a construção de ferrovias.
Indústrias e comércio modernos ganharam alta prioridade. Permitiu-se a existência de organizações políticas. Publicaram-se jornais pela primeira vez. Mandaram-se jovens ao exterior para estudar ciências e mandarins para aprender sobre democracia e sistemas parlamentares. Em 1908, a corte anunciou um programa para se transformar numa monarquia constitucional dentro de um período de nove anos.
Hunan, a província de Mao, que tinha algo em torno de 30 milhões de habitantes, tornou-se um dos lugares mais liberais e excitantes da China. Embora longe do litoral, era ligada por rios navegáveis à costa e, em 1904, sua capital, Changsha, se tornou um porto de comércio "aberto". Um grande número de comerciantes e missionários estrangeiros chegou, trazendo modos e instituições ocidentais. Quando Mao ficou sabendo das escolas modernas, havia mais de cem delas, mais do que em qualquer outro lugar da China, inclusive muitas para mulheres.
Uma delas se localizava perto da aldeia de Mao e se chamava Monte Oriental, no condado dos Wen, a família de sua mãe. As taxas e despesas de acomodação eram bem caras, mas Mao conseguiu que os Wen e outros parentes convencessem seu pai, que arcou com o custo durante cinco meses. A esposa de um de seus primos Wen substituiu o velho mosquiteiro feito à mão por um de musselina feito à máquina, apropriado à modernidade da escola.
Essa escola abriu os olhos de Mao. Havia aulas de educação física, música e inglês e entre o material de leitura havia biografias resumidas de Napoleão, Wellington, Pedro, o Grande, Rousseau e Lincoln. Mao ouviu falar da América e da Europa pela primeira vez e ficou de olho em um homem que estivera no exterior - um professor que estudara no Japão e que os alunos apelidaram de "falso diabo estrangeiro". Décadas mais tarde, Mao ainda lembrava de uma canção japonesa que esse professor ensinara e que celebrava a formidável vitória militar do Japão sobre a Rússia em 1905.
Mao esteve na escola Monte Oriental apenas por alguns meses, mas foi o suficiente para que encontrasse uma nova abertura. Em Changsha havia uma escola criada especialmente para jovens do condado dos Wen e Mao persuadiu um professor a matriculá-lo, ainda que, em termos estritos, ele não pertencesse àquele condado. Na primavera de 1911, chegou a Changsha sentindo-se, em suas próprias palavras, "extremamente excitado". Aos dezessete anos, dizia adeus para sempre à vida de camponês.
Mao afirmou mais tarde que quando era menino, em Shaoshan, se preocupara com os camponeses pobres. Não há provas disso. Ele disse que fora influenciado, ainda em Shaoshan, por um certo P'ang, o Fazedor de Mós, que tinha sido preso e decapitado após liderar uma revolta local de camponeses, mas uma busca exaustiva dos historiadores do Partido Comunista por esse herói não encontrou nenhum traço dele.
Não há sinais de que Mao tenha derivado de suas raízes camponesas alguma preocupação social, muito menos que fosse motivado por um sentimento de injustiça.
Não há sinais de que Mao tenha derivado de suas raízes camponesas alguma preocupação social, muito menos que fosse motivado por um sentimento de injustiça.
Em 5 de abril de 1915, o professor Yang Chang-chi escreveu em seu diário: "Meu aluno Mao Tse-tung disse que [...] seu clã [...] é composto principalmente de camponeses, e é fácil para eles enriquecer" (grifo nosso). Mao não demonstrava nenhuma simpatia em particular pelos camponeses.
Até o final de 1925, quando estava com trinta e poucos anos, e cinco anos depois de se tornar comunista, Mao fez poucas referências a camponeses em todos os seus escritos e conversas conhecidos. Eles aparecem, de fato, numa carta de agosto de 1917, mas, longe de expressar simpatia, Mao diz que estava "surpreso" com o modo como um comandante chamado Tseng Kuo-fan havia "liquidado" com a maior revolta camponesa da história chinesa, a Rebelião Taiping, de 1850-64. Dois anos depois, em julho de 1919, Mao escreveu um ensaio sobre pessoas de diferentes ocupações na vida - os camponeses foram inevitavelmente mencionados -, mas sua lista de questões era muito geral, e seu tom, neutro. Havia uma notável ausência de emoção quando mencionava os camponeses, em comparação com a paixão que transpirava ao falar dos estudantes, cuja vida descrevia como "um mar de amargura". Em uma lista abrangente de pesquisas que traçou em setembro daquele ano, que continha não menos que 71 itens, somente um título (o décimo) era sobre trabalho; o único de seus subtítulos que mencionava camponeses só o fazia como "a questão dos lavradores que intervêm na política". A partir do final de 1920, quando entrou para a órbita comunista, Mao começou a usar expressões como "operários e camponeses" e "proletariado". Mas eram meras frases, parte de um vocabulário obrigatório.
Décadas depois, Mao falou sobre como, na época em que era um jovem de Shaoshan, ele se preocupava com o povo faminto. Os documentos não mostram tal preocupação. Em 1921, Mao esteve em Changsha durante uma epidemia de fome. Um amigo dele escreveu no diário: "Há muitos mendigos - devem ser mais de cem por dia [...] A maioria [...] se parece com esqueletos embrulhados em pele amarela, como se pudessem ser levados por uma rajada de vento". "Ouvi que tanta gente que veio para cá [...] a fim de fugir da fome em suas regiões, havia morrido - que aqueles que vinham dando tábuas de madeira [para fazer caixões] [...] não têm mais condições de fazer isso." Não há menção desse evento nos escritos de Mao da época, e nenhum sinal de que tenha dado alguma atenção a esse assunto.
O passado camponês de Mao não o imbuiu de idealismo que pudesse melhorar o fardo dos camponeses chineses.
[...]
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Esquadros
Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de almodóvar
Cores de frida kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca,
Uma cápsula protetora
Ah! Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome nos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Em cores que eu não sei o nome
Cores de almodóvar
Cores de frida kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca,
Uma cápsula protetora
Ah! Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome nos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto pra quem?
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto pra quem?
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado.
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado.
(Adriana Calcanhoto)
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Alimentos com maior teor de antioxidantes
1- Açafrão (ou cúrcuma) A especiaria é lotada de curcuminoides, compostos com ação anti-inflamatória e anti-idade. A cúrcuma é a raiz e o açafrão é a cúrcuma torrada, em pó. Se almoça fora, leve um potinho com o tempero e salpique sobre o arroz com feijão.
2- Aveia Fonte importante de silício, auxilia na estruturação da pele, minimizando o aspecto da celulite. Tem betaglucana, molécula que melhora a circulação sanguínea e dificulta a absorção da gordura pelo intestino. De quebra, ainda ajuda a eliminar toxinas.
3- Azeite de oliva
Rico em gorduras monoinsaturadas, tem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Dê preferência ao extravirgem, que tem taxa de acidez inferior a 1%. Consuma, no máximo, 2 colheres de sopa por dia.
Rico em gorduras monoinsaturadas, tem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Dê preferência ao extravirgem, que tem taxa de acidez inferior a 1%. Consuma, no máximo, 2 colheres de sopa por dia.
4- Chá de cavalinha, centelha asiática e dente-de-leão A cavalinha apresenta bom teor de silício e funciona como diurético natural, desintoxicando o organismo e reduzindo, assim, o inchaço. A centelha asiática estimula a circulação sanguínea. Já o dente-de-leão ajuda a eliminar as toxinas.
5- Frutas cítricas
Limão, lima-da-pérsia, laranja e goiaba contêm a poderosa vitamina C, além de bioflavonoides, que aumentam o tônus das veias, favorecendo a microcirculação.
Limão, lima-da-pérsia, laranja e goiaba contêm a poderosa vitamina C, além de bioflavonoides, que aumentam o tônus das veias, favorecendo a microcirculação.
6- Frutas vermelhas Morango e uvas vermelhas e roxas possuem protoantocianidina, substância que fortalece os vasos sanguíneos e linfáticos, melhorando a circulação.
7- Linhaça Rica em ômega 3, antiinflamatório natural, auxilia na regulação hormonal. Também faz uma faxina interna, graças ao alto teor de fibras, contribuindo para evitar o acúmulo de impurezas que dificultam a irrigação e favorecem a celulite. Sugestão: leve de casa a linhaça triturada para salpicar sobre a salada, de preferência batida no liquidificador pouco antes de sair para o trabalho. Isso porque as sementes oxidam e perdem boas doses de ômega 3.
8- Mamão e abacaxi Ambas as frutas têm propriedades antiedema, além de enzimas proteolíticas, que ajudam a digerir proteínas que, para algumas pessoas, podem detonar alergias capazes de estimular a formação de adipócitos (células de gordura).
9- Melão Superimportante na alcalinização do pH sanguíneo (é anti-inflamatório), sobretudo se ingerido com as sementes, que podem ser trituradas, garantindo maior fornecimento de fibras.
10- Óleo de gergelim Grande fonte de vitaminas, em especial a E, que atua como antioxidantes e, assim, protegem as células da ação dos radicais livres. Também tem ação anti-inflamatória.
11- Peixes (salmão, atum, sardinha e arenque) Ótimas fontes de ômega 3, gordura que também entra na tropa de choque contra a osteoporose.
12- Pepino Diurético natural, alcalinizante e anti-inflamatório, ajuda a eliminar as toxinas, é rico em vitaminas A e C, além de sais minerais.
13- Sálvia Ajuda a regular os hormônios femininos, sobretudo o estrogênio, intimamente relacionado à celulite.
14- Semente de abóbora Ajuda a tornar o pH do sangue mais alcalino, o que afasta as inflamações. A semente de girassol, outro poderoso antioxidante, pode ser preparada da mesma forma.
15- Suco de uva integral Além de antioxidante, também tem ação anti-inflamatória importante.
(Thaís Cavalheiro e Ana Carolina Carvalho)
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Bullying
EMMA G. FITZSIMMON
DO "NEW YORK TIMES"
DO "NEW YORK TIMES"
Isso pode ser verdade tanto se a vítima for uma menina de 12 anos quanto um jogador de futebol americano de 136 quilos.
Um jogador do Miami Dolphins deixou recentemente a Liga Nacional de Futebol Americano porque era repetidamente insultado e ameaçado por um colega de equipe, Richie Incognito. Muitos torcedores ficaram chocados com os detalhes das mensagens de texto e voz, cheias de palavrões, que Incognito enviava, enquanto outros defenderam seu comportamento, dizendo ser algo natural em um esporte tão rude.
Algumas pessoas ficaram espantadas que Jonathan Martin, que tem 1,95 m de altura, pudesse ser atingido "emocionalmente por provocações de um colega de time", escreveu o colunista Timothy Egan no "New York Times". "Pode-se mesmo machucar um parrudão com palavras?"
Com base na sua própria experiência como jogador de futebol americano no colégio, Egan diz que sim. Ele era mais baixo do que os outros e tinha um enorme cabelo rebelde que chamava a atenção. Seus colegas o azucrinavam. "Sei muito bem como é se entregar em um jogo e ter pessoas que são parte dele, seus colegas de equipe, magoando você."
Nem todos os que fazem bullying são homens. O "Times" noticiou recentemente que cientistas avançaram no entendimento da agressão por parte de mulheres jovens.
"A existência da competição feminina pode parecer óbvia para qualquer um que já esteve numa cantina de escola ou num bar de solteiros", escreveu John Tierney, "mas é difícil analisá-la, porque tende a ser mais sutil e indireta (e bem menos violenta) do que a variedade masculina".
Pesquisadores descobriram que mulheres eram mais propensas a fazer comentários maldosos sobre mulheres que elas consideravam rivais pela atenção masculina. Em um experimento, um grupo de garotas do ensino médio reagiu negativamente quando uma moça vestindo blusa decotada e saia curta entrava na sala, mas elas mal notavam a mesma mulher se ela estivesse usando jeans e camiseta.
E, em vez de confrontarem a mulher diretamente, as jovens faziam piadas sobre ela assim que a "assanhada" saísse da sala.
"Na verdade, as mulheres são muito capazes de agredir as outras, especialmente mulheres percebidas como rivais", disse Tracy Vaillancourt, psicóloga da Universidade de Ottawa.
Para vítimas do bullying que sejam jovens ou de alguma maneira vulneráveis, os danos podem ser trágicos. Em setembro, uma menina de 12 anos da Flórida, chamada Rebecca Ann Sedwick, suicidou-se depois que outras garotas a molestaram pela internet. Ela foi para uma fábrica de cimento abandonada, subiu em uma plataforma e saltou.
"Rebecca se tornou um dos mais jovens membros de uma lista crescente de crianças e adolescentes aparentemente levados ao suicídio, pelo menos em parte, depois de terem sido difamados, ameaçados e zombados on-line", relatou o "Times".
Os adolescentes não usam só o Facebook ou o Instagram para se provocarem. Novos aplicativos surgem constantemente, tornando mais difícil para os pais manterem controle sobre as atividades dos filhos. A mãe de Rebecca, Tricia Norman, não sabia que a filha estava recebendo mensagens que diziam: "Você é feia" e "Dá pra morrer, por favor?".
"Você ouve falar disso a toda hora", disse Norman sobre o bullying na internet. "Mas eu nunca pensei que iria acontecer comigo ou com minha filha."
sábado, 7 de dezembro de 2013
Podres poderes
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Motos e fuscas avançam
Os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais
Queria querer gritar
Setecentas mil vezes
Como são lindos
Como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais...
Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Índios e padres e bichas
Negros e mulheres
E adolescentes
Fazem o carnaval...
Queria querer cantar
Afinado com eles
Silenciar em respeito
Ao seu transe num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau...
Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais Nos salvam, nos salvarão Dessas trevas e nada mais...
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais...
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo
Indo e mais fundo
Tins e bens e tais...
Será que nunca faremos
Senão confirmar
Na incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que essa
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...
Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais...
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais Nos salvam, nos salvarão Dessas trevas e nada mais...
Enquanto os homens
Exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo...
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
(Caetano Veloso)

Seus podres poderes
Motos e fuscas avançam
Os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais
Queria querer gritar
Setecentas mil vezes
Como são lindos
Como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais...
Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Índios e padres e bichas
Negros e mulheres
E adolescentes
Fazem o carnaval...
Queria querer cantar
Afinado com eles
Silenciar em respeito
Ao seu transe num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau...
Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais Nos salvam, nos salvarão Dessas trevas e nada mais...
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais...
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo
Indo e mais fundo
Tins e bens e tais...
Será que nunca faremos
Senão confirmar
Na incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que essa
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...
Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais...
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais Nos salvam, nos salvarão Dessas trevas e nada mais...
Enquanto os homens
Exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo...
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
(Caetano Veloso)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Angola
DAVID SMITH
DO "GUARDIAN"
DO "GUARDIAN"
Angola foi acusada de interditar o islã, depois de fechar a maioria das mesquitas do país, em meio a relatos sobre violência e intimidação contra mulheres que usam o véu.
A Comunidade Islâmica de Angola (ICA) alega que oito mesquitas foram destruídas nos últimos dois anos e que qualquer pessoa que pratique o islã corre o risco de ser considerada culpada de desobedecer ao código penal angolano.
Ativistas dos direitos humanos condenam a repressão ampla. "Pelo que ouvi, Angola é o primeiro país do mundo a ter decidido interditar o islã", disse Elias Isaac, diretor nacional da Iniciativa Sociedade Aberta da África Meridional (Osisa). "Isto é loucura. O governo não tolera qualquer diferença."
As autoridades de Angola, país de maioria católica situado no sul da África, insistem que os relatos publicados na mídia mundial sobre uma suposta interdição do islã são exagerados e que não estão sendo visados locais de culto religioso.
O Reino Unido acaba de nomear Angola um de seus cinco "parceiros de prosperidade de alto nível" na África, e os dois países mantêm um relacionamento comercial crescente.
O presidente angolano, José Eduardo dos Santos, está no poder há 34 anos, sendo o segundo entre os chefes de Estado africanos no poder há mais tempo. Ele é acusado há anos de corrupção e violações dos direitos humanos.
As organizações religiosas em Angola precisam pedir reconhecimento legal, e o país hoje autoriza 83 delas, todas as quais cristãs. No mês passado o Ministério da Justiça rejeitou os pedidos de 194 organizações, incluindo uma da comunidade islâmica.
Pela lei angolana, para conseguir reconhecimento legal um grupo religioso precisa ter mais de 100 mil membros e estar presente em pelo menos 12 das 18 províncias. O status legal lhe dá o direito de construir escolas e locais de culto. Existem apenas estimados 90 mil muçulmanos entre os 18 milhões de habitantes de Angola.
David Já, presidente da Comunidade Islâmica de Angola, disse na quinta-feira: "Podemos afirmar que o islã foi interditado em Angola. É preciso ter 100 mil fiéis para ser reconhecido como religião. De outro modo, não se pode orar oficialmente."
De acordo com a ICA, existem 78 mesquitas no país, e todas foram fechadas exceto as da capital, Luanda, porque são oficialmente não licenciadas. "As mesquitas de Luanda estavam previstas para ser fechadas ontem, mas, diante do furor internacional provocado pelos relatos de que Angola teria interditado o islã, o governo decidiu não fechá-las", disse Já.
"Assim, no momento as mesquitas de Luanda estão abertas, e as pessoas estão indo a elas para fazer suas orações."
Já disse que o governo começou a fechar mesquitas em 2010, incluindo uma na província de Huambo que foi queimada, "um dia depois de as autoridades nos avisarem que não deveríamos ter construído a mesquita naquele local e que ela deveria ser erguida em outro lugar. O governo se justificou dizendo que era uma invasão da cultura angolana e uma ameaça aos valores cristãos."
De acordo com Já, outra mesquita foi destruída este mês em Luanda e 120 exemplares do Alcorão foram queimados. Ele disse ainda que os muçulmanos receberam ordens de desmontar as mesquitas eles mesmos.
"Mandam uma ordem legal de destruirmos o prédio e nos dão prazo de 73 horas para fazê-lo. Se não o fazemos, o próprio governo faz."
As mulheres que usam o véu islâmico tradicional também estariam sendo visadas. "Do jeito como andam as coisas, a maioria das muçulmanas tem medo de usar o véu. Uma mulher foi agredida num hospital em Luanda por estar de véu, e, em outra ocasião, uma jovem muçulmana foi espancada e a mandaram deixar o país porque estava usando véu."
"Mais recentemente, meninas foram proibidas de usar o véu em escolas católicas. Quando fomos lá tirar satisfações com as freiras, elas simplesmente disseram que não podiam permitir o véu. Embora não haja uma lei explícita, escrita, que proíba o uso do véu em Angola, o governo proibiu a prática da fé e as mulheres têm medo de anunciar sua fé, nesse sentido."
As queixas do ICA foram confirmadas por Rafael Marques de Morais, ativista político e jornalista investigativo destacado no país. "Eu já vi a ordem que diz que os próprios muçulmanos devem destruir as mesquitas e levar os escombros embora, senão serão cobrados pelo custo da demolição."
Ele sugeriu que o governo estaria procurando um modo conveniente de desviar a atenção da crescente hostilidade pública em relação a trabalhadores chineses e portugueses em Angola.
"O governo precisa desviar a atenção. Quer encontrar um bode expiatório para as pressões econômicas, dizendo que o islã não tem relação com os valores e a cultura angolanos."
"O governo acha que uma lei abrangente contra o islã vai lhe angariar a simpatia tanto dos angolanos quanto dos setores da comunidade internacional que equacionam o islã com terrorismo."
Indagado sobre a possibilidade de protestos dos muçulmanos, Marques respondeu: "Se os muçulmanos tentarem manifestar alguma ira, serão deportados no dia seguinte".
Mas o governo angolano nega que faça qualquer tentativa de interditar o islã. "Não existe guerra em Angola contra o islã ou qualquer outra religião", disse Manuel Fernando, diretor de assuntos religiosos do Ministério da Cultura. "Não existe posição oficial que busque a destruição ou o fechamento de locais de culto, sejam eles quais forem."
Uma declaração da embaixada angolana nos EUA diz o mesmo: "A República de Angola é um país que não interfere na religião. Temos muitas religiões lá. É liberdade de religião. Temos católicos, protestantes, batistas, muçulmanos e evangélicos."
Tradução de CLARA ALLAIN
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