sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Só o amor baseado e abençoado por DEUS sobrevive ao tempo

As paixões passam, mas o amor baseado em Deus permanece e amadurece com o tempo. Por isso precisamos lutar contra essa visão descartável ensinada pelo mundo de que  ”o amor vale enquanto dura, enquanto um suporta o outro”.
”Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!” (Mc 10,7-8).
A Igreja nos chama à atenção para os tempos em que nós vivemos, no qual se dissemina por toda parte a chamada: ”epidemia do divórcio”. O casamento virou uma coisa descartável, a união sem compromisso de vida parece que está em moda. E hoje nós olhamos para a Palavra de Deus, para aquilo que o Evangelho nos propõe e perguntamos: “O casamento, segundo a vontade de Deus, é impossível de ser vivido?” Impossível não, porque nada é impossível para aquele que crê em Deus! Mas sabemos que não é fácil construir uma vida a dois por toda a vida, porque isso exige compromisso das duas partes, exige responsabilidade, fidelidade e consciência das duas partes daquilo que se propuseram a viver.
Mas o que o Evangelho nos propõe não é uma ”utopia”, porque há muitos casais que, mesmo em meio às lutas e aos desafios da vida, conseguem levar a termo o seu casamento. Não quero jogar pedras em ninguém, nem julgar, quanto menos condenar ninguém. Muito pelo contrário, quero acolher com todo amor do meu coração as diversas realidades de casamento de casais que lutaram, lutaram e, de repente, a união deles não deu certo.
O que devemos fazer é propor o caminho, propor a direção da vida, assim como nos propôs Nosso Mestre e Nosso Senhor Jesus Cristo. O casamento é um compromisso para toda a vida. Por isso precisamos lutar, justamente, contra essa visão descartável ensinada pelo mundo de que “o amor vale enquanto dura, enquanto um suporta o outro”.
O amor se renova, se desdobra e recomeça, por isso se deve lutar por ele! É importante que nós não percamos a visão neste mundo em que já não vemos mais as coisas como Deus nos ensina.
Primeira coisa para conseguirmos isso: precisamos preparar melhor os nossos jovens para que tenham consciência dos deveres e das obrigações do matrimônio. Não podemos permitir que os nossos jovens vão para um casamento, para uma união, para um compromisso a dois, sem a consciência das responsabilidades que vêm com um matrimônio. É preciso fazê-los entender que paixões passam, mas o amor permanece e amadurece com o tempo.
Por outro lado, todos os casais, casados há um ano, há alguns meses, dias ou há muitos anos, precisam ter sempre a consciência de que há a necessidade de uma formação permanente para a vida matrimonial. E buscarem ajuda de Deus, acima de tudo, pela oração; buscarem ajuda da Igreja pelos ensinamentos dela, pela sua doutrina, e acreditarem que o amor, quando é baseado e sustentado em Deus, pode prevalecer contra todos os inimigos do matrimônio.
Deus abençoe você, seu casamento e sua família!
(Homilia de hoje, site Canção Nova).

Ser diferente

"A única salvação do que é diferente é ser diferente até o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas — batalhas para os outros, não para ele, que as percebe — há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos." 

Agostinho da Silva, in 'Diário de Alcestes'

Ney Matogrosso - 'Sangue Latino' (2000)



Ele transpira arte gente! Multiplica Senhor! =)

Nunca pare de sonhar - Grande Gonzaguinha

"Ontem um menino que brincava me falou
Hoje é a semente do amanhã
Para não ter medo que este tempo vai passar
Não se desespere, nem pare de sonhar
Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
Nós podemos tudo, nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será."

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

"- Não me podes negar um facto, disse ele; é que o prazer do beneficiador é sempre maior do que o do beneficiado. Que é o benefício? É um acto que faz cessar certa privação do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto é, uma vez cessada a privação, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Supõe que tens apertado em demasia o cós das calças; para fazer cessar o incómodo, desabotoas o cós, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna à indiferença, e não te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. Não havendo nada que perdure, é natural que a memória se esvaeça, porque ela não é uma planta aérea, precisa de chão. A esperança de outros favores, é certo, conserva sempre no beneficiado a lembrança do primeiro; mas este facto, aliás um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela memória da privação, ou, usando de outra fórmula, pela privação continuada na memória, que repercute a dor passada e aconselha a precaução do remédio oportuno. Não digo que, ainda sem esta circunstância, não aconteça, algumas vezes, persistir a memória do obséquio, acompanhada de certa afeição mais ou menos intensa; mas são verdadeiras aberrações, sem nenhum valor aos olhos de um filósofo. - Mas, repliquei eu, se nenhuma razão há para que perdure a memória do obséquio no obsequiado, menos há de haver em relação ao obsequiador. Quisera que me explicasses este ponto. - Não se explica o que é de sua natureza evidente, retorquiu o Quincas Borba; mas eu direi alguma cousa mais. A persistência do benefício na memória de quem o exerce explica-se pela natureza mesma do benefício e seus efeitos. Primeiramente, há o sentimento de uma boa acção, e dedutivamente a consciência de que somos capazes de boas acções; em segundo lugar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra criatura, superioridade no estado e nos meios; e esta é uma das cousas mais legitimamente agradáveis, segundo as melhores opiniões, ao organismo humano. Erasmo, que no seu Elogio da Loucuraescreveu algumas cousas boas, chamou a atenção para a complacência com que dois burros se coçam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observação de Erasmo; mas direi o que ele não disse, a saber, que se um dos burros coçar melhor o outro, esse há-de ter nos olhos algum indício especial de satisfação. Por que é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá uma certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas ou absolutamente feias? A consciência é a mesma cousa; remira-se a miúdo, quando se acha bela. Nem o remorso é outra coisa mais do que o trejeito de uma consciência que se vê hedionda." 
Machado de Assis, in 'Memórias Póstumas de Brás Cubas'

Clipe- Fernando Anitelli - Cuida de mim

“Cada estrada requer uma determinada medida de vontade, suor e fervor. Aquelas que pouco a exige, não valem à pena serem percorridas.” - P.P.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Padre Fábio de Melo feat.Celina Borges - Nas Asas do Senhor





"Ensina-me a ter o Teu olhar sob o mundo, a amar, acima de tudo!"

Tudo é divino, por Henry Miller.

"Há uma elasticidade cósmica, se assim lhe posso chamar, que é extremamente enganadora. Dá ao homem a ilusão temporária de que é capaz de mudar as coisas. Mas o homem acaba sempre por tornar a cair em si. É aí, na sua própria natureza, que pode e deve praticar-se a transmutação, e em nenhum outro lugar. E quando um homem percebe a que ponto é isto verdade, reconciliando-se com todas as aparências do mal, da fealdade, da mentira e da frustração; a partir de então, deixa de aplicar ao mundo a sua imagem pessoal de tristeza e dor, de pecado e corrupção.
Eu poderia, é certo, formular tudo isto de modo muito mais simples, dizendo que, aos olhos de Deus, tudo é divino. E quando digo tudo, é mesmo tudo o que quero dizer. Quando olhamos as coisas a tal luz, a palavra «transmutação» adquire um sentido ainda maior: pressupõe que o nosso bem-estar depende do nosso entendimento espiritual, do modo como nos servimos da visão divina que possuímos. Com um critério assim, o que nos poderá ainda chocar? "

Henry Miller, in "O Mundo do Sexo"
Esta moça incauta não percebe? O mundo anseia desamparar-te, desconsolar-te. Acorde! Já é hora de suspender as doses de ingenuidade. - P.P.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Lynyrd Skynyrd - Simple Man (LIVE)



Forget your lust for the rich man's gold
All that you need is in your soul
And you can do this if you try
All that I want for you my son?
Is to be satisfied
And be a simple kind of man
Be something you love and understand
Baby, be a simple kind of man
Won't you do this for me, son?
If you can?
Boy, don't you worry, you'll find yourself
Follow your heart and nothing else
And you can do this if you try
All I want for you my son
Is to be satisfied

domingo, 23 de fevereiro de 2014

"O homem é rico em proporção ao número de coisas que pode dispensar. " (Henry David Thoreau)

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Entenda o que ocorre na Ucrânia

Texto de: Victor Romualdo Francisco

Leis contra reuniões para protestar contra um governo que não age com transparência diante da população que o elegeu acabam por gerar mais revolta em uma democracia recém-instaurada. Não, não estou falando de algo que pode acontecer no Brasil em alguns meses, mas sim sobre a Ucrânia, que hoje enfrenta o dia mais sangrento desde que os protestos começaram no fim de 2013. Milhares estão nas ruas de Kiev, tomaram a prefeitura e cercaram a polícia, em um confronto que já causou dezenas de mortos

Só que na Ucrânia, diferentemente do Brasil ou a Tailândia, onde a corrupção e a falta de transparência no uso do dinheiro público causa uma latente revolta da população, há um componente histórico recorrente: o dilema entre a internacionalismo ou a russificação? O dilema é inclusive o título de um livro dos anos 60, escrito por Leonid Dzuba.
A Ucrânia vive um período único em sua história. Há 22 anos, é um país independente. Nunca, por tanto tempo, conseguiu ficar sem o domínio claro de uma potência estrangeira. O outro período de maior "independência" foi de 1917 a 1921 - o fim dos czares deu a falsa esperança que os bolcheviques permitiriam que um povo com uma cultura definida pudesse ter finalmente o seu próprio país, com suas próprias fronteiras.
Aliás, a palavra Ucrânia quer dizer isso mesmo, fronteiras... algo constantemente alterado durante os séculos de existência desta nação. A Ucrânia sempre esteve no meio de outras potências e, para escapar do domínio de uma, fazia alianças com a outra, que, invariavelmente, tornava-se o próximo poder opressor. Foi assim com o Império Bizantino e os mongóis, com os poloneses e os russos, com os nazistas e os soviéticos. No entanto, quem mais esteve no domínio da Ucrânia foram os russos, que deste 1654 (Tratado de Pereyaslav - fim do domínio polaco-lituano), praticamente anexaram o país.
E este é o principal motivo dos protestos: os ucranianos querem o fim da influência russa sob o país, algo que não parece ser o desejo do governo do presidente Viktor Yanukovych, que esteve perto de assinar um acordo comercial com a União Europeia (Internacionalismo), mas, por fim, assinou um acordo de mais de 15 bilhões de euros em compras de títulos nacionais por parte de Vladimir Putin (Russificação).
Além do desejo de realmente ser independente da Rússia, feridas históricas afastam a maioria da população do desejo de continuar sobre a esfera da Moscou. O fato mais marcante é o "Holodomor", política de genocídio aplicada por Stalin em 1932 e 1933 contra os camponeses ucranianos que não colaboraram com o plano quinquenal. A ação, que consistia cortar o fornecimento de alimentos a regiões do país, causou mais de 3 milhões de mortes diretas e 6 milhões de forma indireta, devido à desnutrição da geração posterior. O fato ainda é contestado historicamente.
Vamos ver o que os próximos dias e meses trarão para a continuidade destes poucos anos, inéditos, de independência da Ucrânia. A história mostra que escolher um lado contra o outro nunca trouxe resultados definitivos para que a terra chamada de "fronteira" pudesse ter as suas intactas por muito tempo. Chegou a hora de realmente caminhar com as próprias pernas?



"A facilidade é o irremediável bilhete para tudo o que é medíocre." - P.P.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Iggy Pop - The passenger (Olympia)

"Be firm in your resolutions; stay in the ship in which I placed you and let the storm come. Long live Jesus. You will not perish. Walk the way of the Lord in simplicity; do not torment your spirit. Say the truth, always the truth."
-- Saint Pio of Pietrelcina

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Quanto mais eu vivo, mais forçosa verifico minha luta em ser mais, e mais humilde. - P.P.

Um pouco de José Almada Negreiros

O maior perigo que corre o ingénuo: o de querer ser esperto. Tão ingénuo que cuida, coitado, de que alguma vez no mundo o conhecimento valeu mais do que a ingenuidade de cada um. A ingenuidade é o legítimo segredo de cada qual, é a sua verdadeira idade, é o seu próprio sentimento livre, é a alma do nosso corpo, é a própria luz de toda a nossa resistência moral. 
Mas os ingénuos são os primeiros que ignoram a força criadora da ingenuidade, e na ânsia de crescer compram vantagens imediatas ao preço da sua própria ingenuidade. 
Raríssimos foram e são os ingénuos que se comprometeram um dia para consigo próprios a não competir neste mundo senão consigo mesmos. A grande maioria dos ingénuos desanima logo de entrada e prefere tricher no jogo de honra, do mérito e do valor. São eles as próprias vítimas de si mesmos, os suicidas dos seus legítimos poetas, os grotescos espanatalhos da sua própria esperteza saloia.

Bem haja o povo que encontrou para o seu idioma esta denunciante expressão da pessoa que é vítima de si mesma: a esperteza saloia. A esperteza saloia representa bem a lição que sofre aquele que não confiou afinal em si mesmo, que desconfiou de si próprio, que se permitiu servir de malícia, a qual como toda a espécie de malícia não perdoa exactamente ao próprio que a foi buscar. Em português a malícia diz-se exactamente por estas palavras: esperteza saloia. 

Parecendo tão insignificante, a malícia contudo fere a individualidade humana no mais profundo da integridade do próprio que a usa, porque o distrai da dignidade e da atenção que ele se deve a si mesmo, distrai-o do seu próprio caso pessoal, da sua simpatia ou repulsa, da sua bondade ou da sua maldade, legítimas ambas no seu segredo emocional. 

Porque na ingenuidade tudo é de ordem emocional. Tudo. O que não acontece com as outras espécies de conhecimento onde tudo é de ordem intelectual. Na ordem intelectual é possível reatar um caminho que se rompeu. Na ordem emocional, uma vez roto o caminho, já nunca mais se encontrará sequer aquela ponta por onde se rompeu. 
O conhecimento é exclusivamente de ordem emocional, embora também lhe sirvam todas as pontas da meada intelectual. 

Carta de São Thiago

"19Meus queridos irmãos, sabei que todo homem deve ser pronto para ouvir, mas moroso para falar e moroso para se irritar. 20Pois a cólera do homem não é capaz de realizar a justiça de Deus. 21Por esta razão, rejeitai toda impureza e todos os excessos do mal, mas recebei com humildade a Palavra que em vós foi implantada, e que é capaz de salvar as vossas almas.
22Todavia, sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. 23Com efeito, aquele que ouve a Palavra e não a põe em prática é semelhante a uma pessoa que observa o seu rosto no espelho: 24apenas se observou, vai-se embora e logo esquece como era a sua aparência.
25Aquele, porém, que se debruça sobre a Lei da liberdade, agora levada à perfeição, e nela persevera, não como um ouvinte distraído, mas praticando o que ela ordena, esse será feliz naquilo que faz. 26Se alguém julga ser religioso e não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo: a sua religião é vã. 27Com efeito, a religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo." Carta de são Thiago, 1, 19-27.

santana black magic woman

Na hora de fazer justiça é preciso se desvencilhar dos nossos preconceitos, das nossas visões pré-concebidas, do nosso histórico particular, das nossas relações, e focar irrevogavelmente no que é justo.
-P.P.

DERRETIMENTO DO GELO NOS ALPES ITALIANOS REVELA MÚMIAS DE SOLDADOS MORTOS NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Múmias da Segunda Guerra Mundial | Notícias | The History Channel

As mudanças climáticas estão provocando o derretimento da neve dos Alpes italianos fato que, por sua vez, revelou uma curiosa descoberta: o surgimento de diversos cadáveres daPrimeira Guerra Mundial, na maioria, mumificados. O fenômeno trouxe à tona incontáveis restos humanos de batalhas travadas entre a Itália e o Império Austro-húngaro, durante aPrimeira Guerra.
A descoberta aconteceu nas áreas de Presena e Ortles-Cevedale, na pequena cidade italiana de Peio. No local, milícias de ambos os lados construíram uma fortaleza bélica no topo das montanhas geladas, uma área estratégica para guardar as armas pelo seu difícil acesso. Entretanto, o gelo se transformou no verdadeiro e cruel inimigo comum, já que muitos morreram em decorrência da temperatura (abaixo dos 30°C negativos) e avalanches. 
 
Durante a década de 90, diários, cartas e fragmentos de jornais russos começaram a aparecer. A quantidade de objetos encontrada fez com que residentes da área construíssem um local para guardá-los, que hoje é o atual Museu da Guerra de Peio. Depois disso, em 2004, um guia da montanha achou três corpos mumificados em uma parede congelada, próximo ao pico San Matteo. Os cadáveres eram de soldados austríacos, estavam desarmados e traziam pacotes de ataduras nos bolsos, uma indicação de que poderiam ser enfermeiros austríacos mortos durante a Batalha de San Matteo, de 3 de setembro de 1918.
 
Desde então, mais de 80 corpos foram encontrados e todos, naturalmente, acabaram mumificados em função do tempo e das condições climáticas. A última cerimônia para as vítimas encontradas ocorreu no final do ano passado. Os corpos eram de dois soldados austríacos, de 17 e 18 anos de idade. Eles morreram nas montanhas e foram enterrados em uma fenda, na geleira, por seus companheiros. A previsão de alguns arqueólogos é que muitos outros corpos ainda serão encontrados. 
 
 
 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Saber calar

Aprendi que a nossa língua pode ser um objeto de maldição muito eficaz. Porque insistimos em falar o que não devemos, sem nos importar com o que isso pode causar?! E porque nos interessamos tanto em ouvir coisas que nem sabemos de certo se é fato, bem como se os narradores são pessoas sensatas? O silêncio é divino, e por vezes, é mais expressivo e marcante do que inúmeras palavras malditas. Ele sempre irá nos proteger da catástrofe causada pela impulsão, de ferir em definitivo um coração, de sermos injustos, prepotentes, ou insanos. Declaro aberta minha mais nova campanha para uma vida melhor: Cultivar o silêncio sempre que possível! - P.P.

Carta de Machado de Assis a Carolina de Novais, em 1869.

"Diz a Madame de Stael que os primeiros amores não são os mais fortes porque nascem simplesmente da necessidade de amar. Assim é comigo; mas, além dessa, há uma razão capital, e é que tu não te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Espírito e coração como o teu são prendas raras; alma tão boa e tão elevada, sensibilidade tão melindrosa, razão tão recta não são bens que a natureza espalhasse às mãos cheias (...). Tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir, e pensar. Como te não amaria eu? Além disso tens para mim um dote que realça os mais: sofreste. É minha ambição dizer à tua grande alma desanimada: «levanta-te, crê e ama: aqui está uma alma que te compreende e te ama também». 
A responsabilidade de fazer-te feliz é decerto melindrosa; mas eu aceito-a com alegria, e estou certo que saberei desempenhar este agradável encargo. Olha, querida; também eu tenho pressentimento acerca da minha felicidade; mas que é isto senão o justo receio de quem não foi ainda completamente feliz? 
Obrigado pela flor que mandaste; dei-lhe dois beijos como se fosse a ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma. Sábado é o dia da minha ida; faltam poucos dias e está tão longe! Mas que fazer? A resignação é necessária para quem está à porta do paraíso; não afrontemos o destino que é tão bom connosco. (...) Depois... depois querida, queimaremos o Mundo, porque só é verdadeiramente senhor do Mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis. Estamos ambos neste caso; amamo-nos; e eu vivo e morro por ti." 

Machado de Assis, in "Carta a Carolina de Novais (1869)"



RAUL SEIXAS SOCIEDADE ALTERNATIVA





Como já dizia o ilustre Tiririca: "Raul é fantárdigo!"

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O capitalismo mundial - Jô Soares

O regresso á inocência

Seja como as crianças, mantenha os olhos abertos, sem preconceitos escondidos atrás da vista. Se olhar com clareza, pequenas flores, ou pedaços de relva, ou borboletas, ou um pôr do Sol proporcionar-lhe-ão tanta felicidade quanto a que Gautama Buda encontrou na sua iluminação. Isto não depende das coisas, mas sim da sua abertura. O conhecimento fecha-o; transforma-se numa cerca, numa prisão. Mas a inocência abre todas as portas e todas as janelas. 
O sol entra e uma brisa fresca flui. 
De repente, o perfume das flores faz-lhe uma visita. 
E de vez em quando um pássaro virá cantar uma canção e entrar por outra janela. 
A inocência é a única religiosidade que existe. 
A religiosidade não depende das escrituras sagradas nem do que se sabe sobre o mundo. Só depende de se estar preparado para ser como um espelho límpido, que nada reflecte. 
Um total silêncio, inocência, pureza... e toda a existência é transformada para si. Cada momento passa a ser de êxtase. As pequenas coisas, como beber uma chávena de chá, tornam-se orações tão poderosas que nenhuma outra oração se lhes pode comparar. Basta observar uma nuvem a mover-se livremente no céu, e da inocência surge uma sincronicidade. A nuvem deixa de estar ali como um objecto e você deixa de estar ali como sujeito. Algo se encontra e funde com a nuvem. Então começa a voar com a nuvem. 
Começa a dançar com a chuva e com as árvores. Começa a cantar com os pássaros. Começa a dançar com os pavões, sem se mexer, sentado apenas, e a sua consciência começa a propagar-se à sua volta. 
No dia em que a sua consciência tiver tocado a existência, a religião nascerá dentro de si, e então terá renascido. 
Este é o seu verdadeiro nascimento. 

(Osho, Místico e filósofo indiano.)

Educação


"Penso sempre na triste desventura de quem não encontra nos olhos de um ser, motivos para ver brotar uma alegria inigualável no coração. Queria trabalhar como cupido, alcoviteira, casamenteira, só para disseminar por aí a incrível sensação de amar e ser amado." - P.P.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

COMO NOSSOS PAIS - BELCHIOR

"É aqui onde encontro meu refúgio mais genuíno: Na escrita! Sinto-me como um pássaro levantando voo em direção a um céu morno e luminoso, onde e como se as palavras fossem minhas asas, e a maneira como as coloco fosse o embalo do meu intrépido voo." - P.P.

Democracia

"Em 13 de dezembro o Ato Institucional n. 5 faz 30 anos.
Buscando uma “autêntica ordem democrática”, um militar, que não fora
eleito pelo povo, revogou o que quis da Constituição vigente. Dizia ter o propósito de assegurar
a liberdade, o respeito à dignidade da pessoa, o combate à corrupção, à subversão e às
ideologias contrárias às tradições do povo… Entretanto, permitiu a suspensão de direitos políticos,
autorizou o confisco, limitou o habeas-corpus, negou garantias constitucionais e impediu
que o Judiciário apreciasse a matéria.
Anos de chumbo vieram: a corrupção não foi vencida, as liberdades
públicas foram cerceadas, o País mergulhou em ditadura da qual só saiu em 1984, quando o
regime militar caiu pelo desgaste e não pelas armas.
Hoje, a liberdade é ampla e o País cresceu sim, mas tanto na riqueza
quanto na miséria. E continua subdesenvolvido, ou, mais adocicadamente, país em desenvolvimento
ou país emergente. Mas seu maior subdesenvolvimento é o cultural, pois ainda o
autoritarismo continua e ainda não se aprendeu a respeitar a ordem constitucional. O presidente
da República legisla hoje por medidas provisórias com a mesma desenvoltura com que então
se expediam decretos-leis.
Hoje não temos mais um militar que rasga a Lei Maior, mas um civil
que trata como privilégios o que uma Constituição democrática garante como direitos, e edita
medidas provisórias para revogar direitos adquiridos.
Sem dúvida, o direito não é imutável. Nem o direito constitucional.
Contudo, a ordem constitucional exige respeito ao direito adquirido. E defender a democracia
não é justificativa para violar a Constituição. Aliás, esse foi o mote do AI 5…
Questionemos até que ponto nossa democracia é legítima.
Democracia é governo da maioria do povo e não a vontade do governante.
O poder político e econômico está concentrado em minoria que freqüentemente defende
seus próprios privilégios. Alguns parlamentares são sempre governistas, seja lá quem for o
governo; outros votam de acordo com seus interesses, não raro em contrariedade com compromissos
partidários e promessas eleitorais. Os interesses de grupos e corporações não raro
1. Artigo publicado em Síntese Jornal, Porto Alegre, dezembro de 1998, pág. 3
prevalecem, e muitas vezes é hipocrisia supor que a lei corresponda ao interesse geral (Judiciário,
Polícia, militares, pecuaristas, empresários, banqueiros, e até mesmo interesses estritamente
individuais têm levado à criação de leis). Além disso, o efetivo acesso à Justiça não é
igual para todos, especialmente para os pobres.
Ainda há outros riscos que viciam uma democracia representativa:
a) as fraudes na escolha dos representantes (a demagogia; o controle do tempo da propaganda
e dos meios de acesso a ela; a dificuldade de conhecer os candidatos; o processo eletivo facilmente
manipulável pelos governantes e pela mídia; a influência das pesquisas de opinião
pública; as reações emocionais da população); b) a deformação do equilíbrio da separação de
poderes (a supremacia do Executivo, ou a invasão de atribuições de um poder pelo outro, como
o Executivo a legislar por medidas provisórias, ou o Judiciário a legislar por meio de súmulas
vinculantes, ou o Legislativo, no exercício do poder constituinte derivado, a suprimir
garantias constitucionais dos outros poderes); c) a ruptura dos princípios de igualdade e liberdade
individual, principalmente em razão da pobreza e da miséria, que viciam as bases de um
Estado democrático.
Uma democracia legítima supõe longo caminho de seu efetivo exercício,
com um sistema que assegure: a) a efetiva divisão do poder; b) mecanismos de freios e
contrapesos na divisão do poder, que funcionem efetivamente e que não possam ser suprimidos;
c) o respeito ao direito das minorias e o reconhecimento e a aceitação de que estas se
podem tornar maiorias; d) o reconhecimento de garantias e direitos individuais e coletivos;
e) o respeito à liberdade, igualdade e dignidade das pessoas; f) a existência de decisões tomadas
direta ou indiretamente pela maioria, respeitados os direitos da minoria; g) a total liberdade
na tomada de decisões fundamentais pelo povo, não conduzidas pelos governantes nem
forjadas pela mídia; h) um sistema eleitoral livre e apto para recolher a vontade dos cidadãos;
i) o efetivo acesso a alimentação, saúde, educação, trabalho, Justiça e demais condições básicas
de vida por parte de todos.
A democracia representativa só funciona adequadamente se houver um
sistema efetivo de partidos, com prévios programas de governo, para que a vontade dos eleitores
não seja burlada. Deveriam ser mais usados o referendo e o plebiscito, sem prejuízo da
possibilidade efetiva de revogação dos mandatos (recall).
Precisamos, enfim, repensar o sistema que permite que um presidente
da República possa ser eleito em primeiro turno, quando, nesse embate, tenha perdido da soma
dos votos em branco, nulos e dos seus adversários."
_____________
• Hugo Nigro Mazzilli é professor de Direito e autor do livro O Ministério Público e o acesso
à Justiça (Saraiva).

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

As qualidades dos outros

"Devido ao homem ter tendência para ser parcial para com aqueles a quem ama, injusto para com aqueles a quem odeia, servil para com os seus superiores, arrogante para com os seus inferiores, cruel ou indulgente para com os que estão na miséria ou na desgraça, é que se torna tão difícil encontrar alguém capaz de exercer um julgamento perfeito sobre as qualidades dos outros." 

Confúcio, in 'A Sabedoria de Confúcio'
"Hoje, vejo o lado obscuro do mundo, a medíocre indiferença dos seres que nele habitam, a cegueira causada pela pedantice desenfreada, e um enorme aglomerado de pessoas embutidas em suas cápsulas egocêntricas fingindo serem uma "civilização". Estou escandalizada!" - P.P.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

"Os grandes só parecem grandes porque estamos ajoelhados!" (Che Guevara)


Suécia: Um modelo para o mundo?

Os medos

"É a medo que escrevo. A medo penso,
A medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo.
A medo me renego, me convenço.
A medo amo. A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
De outros medos. A medo é que resvalo
O corpo escrutador, inquieto, tenso.
A medo durmo. A medo acordo. A medo
Invento. A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.
A medo guardo confissão, segredo,
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo e mudo."
José Cutileiro, “Os medos” in Versos da mão esquerda, 1961.
Versos ditados no período de ditadura em Portugal que durou até 1974.

África - Artigo fantástico

O ano que passou certamente não foi dos melhores para o continente africano. Al Qaeda tomando conta de mais da metade do Mali, travando confrontos com tropas francesas no norte do país. Volta da ditadura militar no Egito e prisão das principais lideranças dos protestos que marcaram a derrocada de Hosni Mubarak, em 2011. Massacre étnico no Sudão do Sul, com mais de 200 mil refugiados apenas nas últimas três semanas. Guerra civil entre milícias cristãs e muçulmanas na República Centro-Africana, com quase 1 milhão de deslocados. Líbia pós-Muammar Kadafi virando uma anarquia nas mãos de incontáveis tribos. Guiné-Bissau imersa numa ditadura militar desde o golpe de 2012, com mais de dois terços da população abaixo da linha de pobreza. E isso sem falar, próximo ao continente, na guerra civil com armas químicas na Síria, no Oriente Médio, que já conta com mais de 130 mil mortos – dentre os quais 11.709 mulheres e crianças – segundo o último relatório da Syrian Observatory for Human Rights (que confirmou que o número total de mortos pode estar subestimado em pelo menos 50 mil pessoas). 
Além disso, há ainda os velhos problemas. Robert Mugabe tomando posse de seu sétimo mandato no Zimbabwe, 33 anos à frente de um dos países mais pobres do continente. Congo, onde um general brasileiro comanda tropas da ONU com mais de 20 mil homens, há duas décadas imerso no mais sangrento conflito no mundo desde o fim da 2ª Guerra Mundial, que já matou mais de 6 milhões de pessoas e viu num mísero ano mais de 400 mil estupros de mulheres entre 15 e 49 anos (segundo a Associação Americana de Saúde Pública são 1.095 mulheres estupradas por dia no país; 45 a cada hora). E a Somália, que vive uma guerra civil desde a queda do presidente Siad Barre em 1991, e viu a organização internacional Médicos Sem Fronteira encerrar seu programa de ajuda humanitária após 22 anos de atuação no país, resultado da profunda violência contra as equipes médicas, responsável pelo tratamento de mais de 30 mil crianças desnutridas apenas em 2012 (mais de 258 mil somalis morreram de fome entre outubro de 2010 e abril de 2012, segundo o último relatório divulgado pela ONU, dentre os quais 133 mil crianças com menos de cinco anos).Apesar de todos esses fatos e dados alarmantes, ainda há esperança no continente africano. E ela inevitavelmente passa por países que respeitam instituições como a propriedade privada e o livre comércio.
Botswana é um desses casos. Em 1966, quando se tornou independente sobre a liderança de Seretse Khama, era um dos países mais pobres do mundo. Com uma renda per capita inferior a US$70/ano, o país contava com míseros 12 quilômetros de estradas pavimentadas, 22 cidadãos com diploma universitário e outros 100 com formação na escola secundária. Adotando instituições econômicas e políticas inclusivas, Botswana experimentou um dos mais acelerados crescimentos econômicos das últimas cinco décadas e encontra-se atualmente no mesmo patamar de países bem-sucedidos do Leste Europeu, como Estônia e Hungria. Num continente onde todos os caminhos levam para a tirania – seja perpetuada por ditadores ou por tribos e milícias – Seretse Khama e Quett Masire souberam direcionar os rumos do país para a prosperidade, realizando reformas econômicas em defesa do livre mercado e propagando estabilidade política.
Atualmente, segundo o ranking da Heritage, Botswana é a trigésima economia mais livre do mundo – à frente de países como Coreia do Sul, Noruega, Bélgica, Espanha; e bem à frente de Brasil e África do Sul. No Ease of Doing Business Rank, do Banco Mundial, enquanto o nosso país ocupa o pífio 116º lugar, eles já são o 56º. E a abertura econômica trouxe um significativo aumento de renda ao país, além de diminuir a latente desigualdade social. Até meados dos anos 90, Botswana possuia metade da nossa renda per capita. Desde então, com a renda per capita crescendo a uma taxa média de 4,6% ao ano, acabamos ultrapassados (atuais $16,105/ano; o Brasil tem um PIB per capita de $11,716, em PPP). A pobreza, seguindo a abertura econômica, declinou de mais de 50% para menos de 20%.
Mas nem tudo são rosas. Evidentemente ainda há graves problemas num país historicamente abraçado com o extrativismo. Botswana é o segundo país com a maior incidência do vírus HIV em todo mundo, perdendo apenas para a vizinha Suazilândia – quase 25% da população é aidética. Muito por conta disso, a expectativa de vida da população é baixa e a mortalidade infantil é alta – embora esses números estejam melhorando drasticamente nos últimos anos graças ao aumento de renda da população e do consequente gasto per capita em saúde. Ainda assim, acompanhando o milagre econômico, 83% da população já é alfabetizada (esse número é de 71,4% no Egito, por exemplo), o país tem um dos maiores Índices de Desenvolvimento Humano da África Subsaariana, no “Corruption Perceptions Index” é o menos corrupto de todo continente (menos corrupto que países como Portugal, Espanha, Coreia do Sul, Itália e Brasil) e detém bons índices no ranking de liberdade de imprensa da organização Reporters Without Borders (à frente de países como Japão, Argentina, Chile, Itália, Coreia do Sul e Brasil). Além disso, nos últimos anos o país deixou de ser tão dependente de diamante, ouro, cobre, níquel e carvão, e viu um crescimento exponencial do setor industrial e de serviços. 
Não bastasse, Ian Khama – filho de Seretse Khama e atual presidente do país – é uma das poucas autoridades no continente com coragem para enfrentar Muhammar Kaddafi, Robert Mugabe e outros tiranos africanos. Recentemente, exigindo a construção de uma estabilidade política, num discurso pouco usual no continente, disse que a comunidade internacional têm a responsabilidade de “desencorajar aqueles que teimam em se manter no poder durante várias décadas, quer seja através de processos eleitorais corruptos para favorecer o incumbente, quer de outros casos em que não existe nenhuma tentativa de se formar um processo eleitoral”.
O continente africano detém os mais baixos índices de desenvolvimento humano do mundo. E isso se dá fundamentalmente graças à falta de estabilidade política e de instituições que sustentem o progresso na região. Países como Maurício e Botswana são a prova de que é possível derrubar esses muros. O livre mercado pode salvar a África.

Fonte: Rodrigo da Silva em Libertroll

terça-feira, 7 de janeiro de 2014



Porque quando elas querem, sabem o que é a sobriedade e acima de tudo a Maturidade! ^^ Que saudade minha Tatá e minha Dadá! <3 p="">
"Aquele que se tenha erguido acima do cesto das esmolas e não se tenha contentado em viver ociosamente das sobras de opiniões suplicadas, que pôs a funcionar os seus próprios pensamentos para encontrar e seguir a verdade, não deixará de sentir a satisfação do caçador; cada momento da sua busca recompensará os seus dissabores com algum prazer; e terá razões para pensar que o seu tempo não foi mal gasto, mesmo quando não se puder gabar de nenhuma aquisição especial."

John Locke, in 'Ensaio Sobre o Entendimento Humano'

I rest in the thought that you're watching over me my Lord! 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Para ler

Mao Tse-Tung liderou a Revolução Cultural (1966-1976), que fez a China se tornar um país comunista. A execução sistemática de inimigos foi uma das consequências da "limpeza" pela qual a China passou naquele período.
Andrew Wong/Reuters
Mao Tsé-tung liderou o exército vermelho que expulsou Chiang Kai-shek da China
Mao Tsé-tung liderou o exército vermelho que expulsou Chiang Kai-shek da China
"Mao Tse-tung, que durante décadas deteve poder absoluto sobre a vida de um quarto da população mundial, foi responsável por bem mais de 70 milhões de mortes em tempos de paz, mais do que qualquer outro líder do século 20", escrevem Jung Chang e Jon Halliday em "Mao: A História Desconhecida".
Mao –que assumiu o governo em 1949– se apoiou em estudantes, um dos objetivos principais era garantir a participação da juventude nas mudanças. Antes, o país vivia uma crise política e econômica.
A Revolução se fez a partir do campo, pelos camponeses, e não das cidades, pelos operários. Uma receita que contrariava a ortodoxia marxista.
A biografia "Mao: A História Desconhecida" é o resultado de uma década de pesquisa em arquivos do mundo todo e centenas de entrevistas com amigos, colaboradores e conhecidos do líder chinês.
Os autores procuram demolir diversos episódios da revolução chinesa. Eles contrariam o professado heroísmo da Longa Marcha, relatam ajuda financeira e militar da União Soviética de Stálin e desqualificam os relatos de rebeldes comunistas que teriam enfrentado o Japão na Segunda Guerra Mundial.
O livro causou grande impacto quando foi publicado, no Reino Unido, em 2005. No Brasil, a Companhia das Letras lançou o título em duas edições, a última delas, em versão econômica, em 2012. Abaixo, leia um trecho de "Mao: A História Desconhecida".
*
PARTE 1
Um crente sem entusiasmo
1. Entre o antigo e o moderno
(1893-1911; 1-17 anos)
Mao Tse-tung, que durante décadas deteve poder absoluto sobre a vida de um quarto da população mundial, foi responsável por bem mais de 70 milhões de mortes em tempos de paz, mais do que qualquer outro líder do século XX. Ele nasceu numa família de camponeses, em um vale chamado Shaoshan, na província de Hunan, no coração da China, em 26 de dezembro de 1893. Seus ancestrais haviam vivido no vale por quinhentos anos.
Era um mundo de beleza antiga, uma região temperada, úmida, cujas colinas ondulantes e enevoadas eram habitadas desde o Neolítico. Templos budistas que datavam da dinastia Tang (618-906), quando o budismo ali chegou, ainda estavam em uso. Florestas onde quase trezentas espécies de árvores cresciam, entre elas bordo, cânfora, metassequóia e o raro ginkgo, cobriam a área e abrigavam tigres, leopardos e javalis, que ainda vagavam pelas montanhas (o último tigre foi morto em 1957). Esses morros, sem estradas nem rios navegáveis, separavam a aldeia do resto do mundo. Ainda no começo do século XX, a notícia de um acontecimento tão momentoso como a morte do imperador, em 1908, não chegou lá e Mao só ficou sabendo disso dois anos depois, quando deixou Shaoshan.
O vale de Shaoshan mede em torno de cinco por três quilômetros e meio. As cerca de seiscentas famílias que viviam ali plantavam arroz, chá e bambu e usavam búfalos para lavrar os arrozais. A vida cotidiana girava em torno dessas atividades antiqüíssimas. Yi-chang, o pai de Mao, nasceu em 1870. Aos dez anos de idade, ficou noivo de uma menina de treze, de uma aldeia distante cerca de dez quilômetros, do outro lado de uma passagem chamada Passo do Tigre em Repouso, onde os tigres costumavam tomar banho de sol. Naquele tempo, essa curta distância era o suficiente para que as duas aldeias falassem dialetos quase ininteligíveis mutuamente. Sendo uma mera menina, a mãe de Mao não recebeu um nome; e, como era a sétima filha do clã Wen, era conhecida apenas como a Sétima Irmã Wen. De acordo com séculos de costume, seus pés haviam sido comprimidos e amarrados para produzir os assim chamados "lírios dourados de três polegadas", que eram o modelo de beleza da época.
Divulgação
Os autores mostram como Mao concentrou-se em expandir seu domínio
Livro mostra como Mao concentrou-se em expandir seu domínio
O noivado com o pai de Mao seguiu costumes ancestrais. Foi arranjado pelos pais e se baseava numa consideração prática: o túmulo de um dos avôs dela estava em Shaoshan e precisava ser cuidado periodicamente com rituais elaborados; assim, ter um parente lá seria útil. A Sétima Irmã Wen mudou-se para a casa da família de Mao depois do noivado e casou-se aos dezoito anos, em 1885, quando Yi-chang estava com quinze.
Pouco depois do casamento, Yi-chang partiu para se tornar soldado, a fim de ganhar dinheiro para pagar as dívidas da família, o que conseguiu depois de vários anos. Os camponeses chineses não eram servos, mas agricultores livres, e entrar para o Exército por razões puramente financeiras era uma prática estabelecida. Felizmente, não se envolveu em nenhuma guerra; em vez disso, conheceu um pouco do mundo e captou algumas ideias para negócios. Ao contrário da maioria dos aldeões, Yi-chang sabia ler e escrever, o suficiente para lidar com contabilidade. Ao retornar, criou porcos e processou grãos para obter um arroz de alta qualidade, a fim de vender no mercado de uma cidade próxima. Comprou de volta as terras que o pai havia penhorado, depois comprou mais terras e se tornou um dos homens mais ricos da aldeia.
Embora relativamente próspero, Yi-chang continuou a ser um homem extremamente trabalhador e econômico por toda a vida. A casa da família consistia em meia dúzia de dependências que ocupavam uma ala de uma grande propriedade coberta de sapê. Mais tarde, Yi-chang substituiu o sapê por telhas, uma grande melhoria, mas conservou o chão batido e as paredes de barro. As janelas não tinham vidros - um luxo ainda raro - e eram apenas aberturas quadradas com barras de madeira, fechadas à noite com pranchas de madeira (a temperatura dificilmente caía abaixo de zero). A mobília era simples: camas de madeira, mesas e bancos de madeira nua. Foi num desses quartos espartanos, sob uma colcha de algodão azul tecida em casa, dentro de um mosquiteiro azul, que Mao nasceu.
Mao foi o terceiro filho, mas o primeiro a sobreviver à infância. Sua mãe, budista, tornou-se ainda mais devota para que Buda o protegesse. Mao ganhou o nome duplo Tse-tung.Tse, que significa "brilhar sobre", foi o nome dado a toda a sua geração, tal como predeterminado quando a crônica do clã foi escrita pela primeira vez, no século XVIII; tung significa "o Leste". Assim, seu nome completo significava "brilhar sobre o Leste". Quando dois outros meninos nasceram, em 1896 e 1905, ganharam os nomes de Tse-min (min significa "o povo") e Tse-tan (tan se referia possivelmente à região local, Xiangtan).
Esses nomes refletiam a inveterada aspiração dos camponeses chineses de que seus filhos fossem bem-sucedidos - e a expectativa de que poderiam ser. Altos cargos estavam abertos a todos por meio da educação, que durante séculos significou estudar os clássicos confucianos. A excelência possibilitaria que homens jovens de qualquer extração passassem nos exames imperiais e se tornassem mandarins - a caminho de se tornarem primeiros-ministros. Um cargo na burocracia era sinônimo de sucesso e os nomes dados a Mao e seus irmãos expressavam as esperanças neles depositadas.
Mas um grande nome também tinha um peso e desafiava potencialmente o destino; então, a maioria dos filhos ganhava um nome de estimação que era mais despretensioso ou forte, ou ambos. O de Mao era "Menino de Pedra" - Shi san ya-zi. Para esse segundo "batismo", sua mãe o levou até uma rocha de cerca de dois metros e meio de altura, que tinha fama de ser encantada, pois havia uma fonte sob ela. Depois que Mao fez mesuras e reverências, foi considerado adotado pela pedra. Ele gostava muito desse nome e continuou a usá-lo na idade adulta. Em 1959, quando voltou a Shaoshan e se encontrou com os aldeões pela primeira - e única - vez na qualidade de líder supremo da China, começou o jantar para eles com um gracejo: "Então, estão todos aqui, exceto minha Mãe Pedra. Devemos esperar por ela?".
Mao adorava sua mãe real, com uma intensidade que não demonstrava com mais ninguém. Ela era uma pessoa gentil e tolerante, que, como ele lembrava, jamais ergueu a voz para o filho. Dela herdou o rosto redondo, os lábios sensuais e um autocontrole calmo nos olhos. Mao falaria com emoção sobre a mãe pelo resto da vida. Foi seguindo seu exemplo que se tornou budista quando criança. Anos mais tarde, disse ao seu staff: "Eu idolatrava minha mãe [...] Onde quer que ela fosse, eu a seguia [...] indo a feiras de templos, queimando incenso e dinheiro de papel, fazendo reverências a Buda [...] Porque minha mãe acreditava em Buda, eu também acreditava". Mas ele abandonou o budismo na adolescência.
Mao teve uma infância despreocupada. Até os oito anos, morou com a família da mãe, os Wen, na aldeia deles, pois ela preferia morar com sua própria família. Lá, sua avó materna o adorava. Os dois tios e esposas o tratavam como filho e um deles se tornou seu pai adotivo, o equivalente chinês de padrinho. Mao fazia um pouco de trabalho agrícola leve, juntando forragem para os porcos e levando os búfalos para passear nos bosques de camélias, junto a um lago sombreado por folhas de bananeiras. Na velhice, ele lembraria com ternura dessa época idílica. Começou a aprender a ler, enquanto as tias teciam e costuravam à luz de uma lamparina a óleo.
Mao só voltou a morar em Shaoshan na primavera de 1902, aos oito anos de idade, para receber instrução, que assumiu a forma de estudo na casa de um tutor. Os clássicos confucianos, que compunham a maior parte do currículo, estavam acima da compreensão das crianças e tinham de ser aprendidos de cor. Mao foi abençoado com uma memória excepcional e se saiu bem. Seus companheiros de estudo lembravam de um menino diligente que conseguia não somente recitar mas também escrever mecanicamente aqueles textos difíceis. Ele também adquiriu conhecimentos básicos de língua e história chinesas e começou a aprender a escrever boa prosa, caligrafia e poesia - escrever poemas era uma parte essencial da educação confuciana. A leitura tornou-se uma paixão. Em geral, os camponeses se deitavam ao pôr do sol, para economizar óleo, mas Mao ficava lendo noite adentro, com uma lamparina acesa sobre um banco, ao lado de seu mosquiteiro. Anos depois, quando era governante supremo da China, metade de sua enorme cama vivia empilhada de clássicos chineses e ele enchia seus discursos e escritos com referências históricas. Mas seus poemas perderam qualidade.
Mao entrava frequentemente em choque com seus tutores. Fugiu de sua primeira escola aos dez anos, dizendo que o professor era um tirano. Foi expulso de pelo menos três escolas - ou "pediram que as deixasse" - por ser teimoso e desobediente. A mãe o protegia, mas o pai não estava contente e o salto de Mao de tutor em tutor era apenas uma das fontes de tensão entre eles. Yi-chang pagava pela educação do filho e esperava que ele pudesse ao menos ajudar nas contas da família, mas Mao não gostava da tarefa. Durante toda a vida, foi confuso com números e uma nulidade em economia. Nem gostava muito do trabalho braçal pesado. Passou a evitá-lo assim que acabaram seus dias de camponês.
Yi-chang não suportava ver Mao ocioso. Tendo gasto cada minuto de seus dias trabalhando, esperava que o filho fizesse a mesma coisa e batia nele quando não obedecia. Mao odiava o pai. Em 1968, quando estava se vingando dos adversários políticos em vasta escala, disse aos torturadores deles que gostaria que seu pai tivesse sido tratado com a mesma brutalidade: "Meu pai era mau. Se estivesse vivo hoje, deveriam 'pô-lo no jato'". Tratava-se de uma posição de tortura em que os braços da pessoa eram presos às costas e a cabeça forçada para baixo.
Mao não era uma mera vítima do pai. Ele reagia e muitas vezes saía vitorioso. Dizia-lhe que, por ser mais velho, deveria fazer mais trabalho manual do que ele, o mais jovem - o que era um argumento incrivelmente insolente pelos padrões chineses. Um dia, de acordo com Mao, pai e filho tiveram uma briga diante de convidados. "Meu pai me repreendeu diante deles. Isso me enfureceu. Disse-lhe uns palavrões e saí da casa [...] Meu pai [...] me perseguiu, me maldizendo e ordenando que eu voltasse. Cheguei na beira de um lago e ameacei saltar se ele se aproximasse mais [...] Meu pai recuou." Certa vez, ao recontar essa história, Mao riu e acrescentou uma observação: "Velhos como ele não queriam perder os filhos. Era essa a fraqueza deles. Eu ataquei o ponto fraco deles, e venci!".
Dinheiro era a única arma que o pai de Mao possuía. Depois que o filho foi expulso pelo quarto tutor, em 1907, ele deixou de pagar os estudos e o menino de treze anos teve de se tornar camponês em tempo integral. Mas logo encontrou uma maneira de evitar o trabalho na lavoura e voltar ao mundo dos livros. Yi-chang estava ansioso para que o filho se casasse e assim, amarrado, passasse a se comportar com responsabilidade. Sua sobrinha estava com a idade certa para se tornar esposa, sendo quatro anos mais velha do que Mao, o qual concordou com o plano do pai e retornou à escola depois do casamento.
O matrimônio realizou-se em 1908, quando Mao tinha catorze anos, e a noiva, dezoito. O nome da família da garota era Luo, mas ela mesma não tinha nome próprio e era chamada apenas de Mulher Luo. A única vez que Mao a mencionou foi numa conversa com o jornalista americano Edgar Snow, em 1936, quando manifestou um notável desprezo e exagerou a diferença de idade entre eles: "Quando eu tinha catorze anos, meus pais me casaram com uma garota de vinte. Mas eu nunca vivi com ela [...] Não a considero minha esposa [...] e pensei muito pouco nela". Não deu nenhuma pista de que não estava mais viva; na verdade, Mulher Luo morreu em 1910, pouco mais de um ano após o casamento.
O casamento precoce de Mao fez dele um feroz oponente dos casamentos arranjados. Nove anos depois, escreveu um artigo violento contra a prática: "Nas famílias ocidentais, os pais reconhecem a livre vontade dos filhos. Mas, na China, as ordens dos pais não são de modo algum compatíveis com a vontade dos filhos [...] Trata-se de um tipo de 'estupro indireto'. Os pais chineses estão todo o tempo estuprando indiretamente seus filhos".
Assim que sua mulher morreu, o viúvo de dezesseis anos exigiu partir de Shaoshan. O pai queria que ele fosse aprendiz num armazém de arroz na cidade próxima, mas Mao estava de olho numa escola moderna, distante cerca de 25 quilômetros. Ele soubera que o exame imperial fora abolido. Agora havia escolas modernas que ensinavam matérias como ciência, história e geografia mundiais e línguas estrangeiras. Foram essas escolas que abriram as portas de saída da vida camponesa para muitos chineses como ele.
No final do século XIX, a China havia embarcado numa transformação social dramática. A dinastia manchu, no poder desde 1644, vivia uma transição do antigo para o moderno. A mudança foi precipitada por uma série de derrotas acachapantes nas mãos das potências europeias e do Japão, a começar pela Guerra do Ópio, de 1839-42, quando as potências ocidentais vieram bater nas portas fechadas da China. Da corte manchu aos intelectuais, quase todos concordavam que o país precisava mudar se quisesse sobreviver. Fizeram-se muitas reformas fundamentais, entre as quais a instalação de um sistema educacional completamente novo. Iniciou-se a construção de ferrovias.
Indústrias e comércio modernos ganharam alta prioridade. Permitiu-se a existência de organizações políticas. Publicaram-se jornais pela primeira vez. Mandaram-se jovens ao exterior para estudar ciências e mandarins para aprender sobre democracia e sistemas parlamentares. Em 1908, a corte anunciou um programa para se transformar numa monarquia constitucional dentro de um período de nove anos.
Hunan, a província de Mao, que tinha algo em torno de 30 milhões de habitantes, tornou-se um dos lugares mais liberais e excitantes da China. Embora longe do litoral, era ligada por rios navegáveis à costa e, em 1904, sua capital, Changsha, se tornou um porto de comércio "aberto". Um grande número de comerciantes e missionários estrangeiros chegou, trazendo modos e instituições ocidentais. Quando Mao ficou sabendo das escolas modernas, havia mais de cem delas, mais do que em qualquer outro lugar da China, inclusive muitas para mulheres.
Uma delas se localizava perto da aldeia de Mao e se chamava Monte Oriental, no condado dos Wen, a família de sua mãe. As taxas e despesas de acomodação eram bem caras, mas Mao conseguiu que os Wen e outros parentes convencessem seu pai, que arcou com o custo durante cinco meses. A esposa de um de seus primos Wen substituiu o velho mosquiteiro feito à mão por um de musselina feito à máquina, apropriado à modernidade da escola.
Essa escola abriu os olhos de Mao. Havia aulas de educação física, música e inglês e entre o material de leitura havia biografias resumidas de Napoleão, Wellington, Pedro, o Grande, Rousseau e Lincoln. Mao ouviu falar da América e da Europa pela primeira vez e ficou de olho em um homem que estivera no exterior - um professor que estudara no Japão e que os alunos apelidaram de "falso diabo estrangeiro". Décadas mais tarde, Mao ainda lembrava de uma canção japonesa que esse professor ensinara e que celebrava a formidável vitória militar do Japão sobre a Rússia em 1905.
Mao esteve na escola Monte Oriental apenas por alguns meses, mas foi o suficiente para que encontrasse uma nova abertura. Em Changsha havia uma escola criada especialmente para jovens do condado dos Wen e Mao persuadiu um professor a matriculá-lo, ainda que, em termos estritos, ele não pertencesse àquele condado. Na primavera de 1911, chegou a Changsha sentindo-se, em suas próprias palavras, "extremamente excitado". Aos dezessete anos, dizia adeus para sempre à vida de camponês.
Mao afirmou mais tarde que quando era menino, em Shaoshan, se preocupara com os camponeses pobres. Não há provas disso. Ele disse que fora influenciado, ainda em Shaoshan, por um certo P'ang, o Fazedor de Mós, que tinha sido preso e decapitado após liderar uma revolta local de camponeses, mas uma busca exaustiva dos historiadores do Partido Comunista por esse herói não encontrou nenhum traço dele.
Não há sinais de que Mao tenha derivado de suas raízes camponesas alguma preocupação social, muito menos que fosse motivado por um sentimento de injustiça.
Em 5 de abril de 1915, o professor Yang Chang-chi escreveu em seu diário: "Meu aluno Mao Tse-tung disse que [...] seu clã [...] é composto principalmente de camponeses, e é fácil para eles enriquecer" (grifo nosso). Mao não demonstrava nenhuma simpatia em particular pelos camponeses.
Até o final de 1925, quando estava com trinta e poucos anos, e cinco anos depois de se tornar comunista, Mao fez poucas referências a camponeses em todos os seus escritos e conversas conhecidos. Eles aparecem, de fato, numa carta de agosto de 1917, mas, longe de expressar simpatia, Mao diz que estava "surpreso" com o modo como um comandante chamado Tseng Kuo-fan havia "liquidado" com a maior revolta camponesa da história chinesa, a Rebelião Taiping, de 1850-64. Dois anos depois, em julho de 1919, Mao escreveu um ensaio sobre pessoas de diferentes ocupações na vida - os camponeses foram inevitavelmente mencionados -, mas sua lista de questões era muito geral, e seu tom, neutro. Havia uma notável ausência de emoção quando mencionava os camponeses, em comparação com a paixão que transpirava ao falar dos estudantes, cuja vida descrevia como "um mar de amargura". Em uma lista abrangente de pesquisas que traçou em setembro daquele ano, que continha não menos que 71 itens, somente um título (o décimo) era sobre trabalho; o único de seus subtítulos que mencionava camponeses só o fazia como "a questão dos lavradores que intervêm na política". A partir do final de 1920, quando entrou para a órbita comunista, Mao começou a usar expressões como "operários e camponeses" e "proletariado". Mas eram meras frases, parte de um vocabulário obrigatório.
Décadas depois, Mao falou sobre como, na época em que era um jovem de Shaoshan, ele se preocupava com o povo faminto. Os documentos não mostram tal preocupação. Em 1921, Mao esteve em Changsha durante uma epidemia de fome. Um amigo dele escreveu no diário: "Há muitos mendigos - devem ser mais de cem por dia [...] A maioria [...] se parece com esqueletos embrulhados em pele amarela, como se pudessem ser levados por uma rajada de vento". "Ouvi que tanta gente que veio para cá [...] a fim de fugir da fome em suas regiões, havia morrido - que aqueles que vinham dando tábuas de madeira [para fazer caixões] [...] não têm mais condições de fazer isso." Não há menção desse evento nos escritos de Mao da época, e nenhum sinal de que tenha dado alguma atenção a esse assunto.
O passado camponês de Mao não o imbuiu de idealismo que pudesse melhorar o fardo dos camponeses chineses.
[...]

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013



Come rain or come shine - Eric Clapton e B.B. King

Esquadros

Eu ando pelo mundo prestando atenção 
Em cores que eu não sei o nome
Cores de almodóvar
Cores de frida kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca,
Uma cápsula protetora
Ah! Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome nos meninos que têm fome
Pela janela do quarto 
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto pra quem?

Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado

Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado.

(Adriana Calcanhoto)